O maior desafio para o Brasil, a curto prazo, é a redução do déficit fiscal, segundo a opinião de especialistas mundiais em finanças, reunidos esta semana em Nova York. A incapacidade do gigante sul-americano de reduzir seu déficit fiscal explica a perspectiva negativa sobre sua dívida externa de longo prazo e sobre sua dívida em moeda local, indicou em Nova York a agência de análises de investimentos ‘‘Duff et Phelps’’. A falta de confiança dos mercados na capacidade do governo em baixar seu déficit, que chega a 8,75% do Produto Interno Bruto (PIB), mantém a pressão sobre o real e as taxas de juros, a 39%, sublinharam os analistas. O analista da dívida soberana, Fergus McCormick, disse num informe que é crucial para o Brasil a realização de cortes orçamentários, a fim de restaurar a confiança dos investidores e conseguir reduzir as altas taxas de juros. Caso isso não ocorra, o governo terá de acelerar as privatizações para recuperar uma certa estabilidade financeira que veio a pique com a crise financeira desatada desde que o governo se decidiu pela flutuação de sua moeda, em meados de janeiro.
O informe recorda que o governo brasileiro, incapaz de reduzir os gastos e obter uma arrecadação adequada, e de reduzir as altas taxas de juros, é obrigado a financiar seu déficit emitindo dívida interna com prazos muito curtos. As fortes amortizações da dívida doméstica deterioram ainda mais a confiança dos investidores, obrigando o governo a recorrer a novas emissões, em vez de refinanciar sua dívida existente em melhores termos, diz o informe. Uma ampla parte da dívida doméstica deve ser financiada nesta primavera boreal próxima, e o Brasil se verá em apuros se as taxas de juros forem mantidas altas, acrescentou o especialista. O relatório considera que muito depende do acordo do Brasil com o Fundo Monetário Internacional (FMI) sobre o programa de apoio ao País, cuja concretização se espera para os próximos dias. Segundo o último informe do Banco Central (BC), divulgado em fevereiro, o setor público brasileiro acumulou um déficit nominal de R$ 78,9 bilhões, ou 8,75% do PIB, entre novembro de 97 e novembro de 98.
A análise é lúcida e, mais importante, isenta, com conclusões similares às de todos quantos, há tempos, se debruçam sobre a realidade brasileira. É inegável que o mais sério problema que o País enfrenta é o chamado ‘‘custo Brasil’’, este verdadeiro ‘‘elefante branco’’ que é uma administração cheia de falhas, com abusos, corrupção, irracionalidade. O plano de estabilização da economia, lançado há cinco anos, já contemplava a questão. Mesmo antes disso sabia-se que o maior entrave a qualquer esforço para tirar o Brasil do subdesenvolvimento em que vivia era o déficit público, sem controle. Curiosamente, e até conforme com a absurda situação que o Brasil viveu, a inflação exacerbada, a indexação total, a ciranda financeira que gerava imensos lucros sem trabalho, ajudava a mascarar as falhas das administrações. Quando a estabilidade se cristalizou, a indexação acabou, a ciranda financeira ruiu, ficou à mostra a situação verdadeira de um país com governos que gastavam desbragadamente, mergulhado no déficit, que era (e continua a ser) a fonte das maiores dificuldades que todos enfrentam.
O plano de estabilização apresentava os elementos para garantir o projeto: reformas estruturais efetivas, privatização, racionalização, tudo com o escopo de acabar com o déficit público. As reformas não se concluíram (e boa parte do que se fez foi modificado), a privatização também não se fez e a racionalização nos gastos públicos ainda é uma utopia. O desafio de hoje é o mesmo de há cinco anos. Mas a crise é pior e é vital que se faça logo o que até agora não foi concluído.

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