Editorial - O governo e os saques
No seu imortal e sempre atual romance Os Miseráveis, o escritor francês Victor Hugo narra a tragédia de um homem que foi preso e condenado à Bastilha, por roubar um pão. Hoje, no Brasil, o presidente Fernando Henrique Cardoso acusa a Igreja, a CUT e o MST devido às manifestações em apoio aos flagelados do Nordeste, que premidos pela fome e sem alternativa, invadiram cidades e saquearam armazéns. Naturalmente, esta não é a solução para o problema e ninguém pode apoiá-la. Todavia, desconhecer a realidade da situação é talvez mais grave do que justificar o saque.
O governo federal anunciou esta semana que vai atender os flagelados, distribuindo um milhão de cestas básicas, abrindo frentes de trabalho, levando à região da fome o atendimento necessário e justo. Mas isto não pode demorar. E este é um dos grandes problemas da burocracia deste País, em que ações emergenciais como esta acabam se perdendo na demora, no atraso, na demagogia e até, sem dúvida, na corrupção. Pois ninguém desconhece o fato de que muitos, ao longo dos anos, se beneficiaram da famosa indústria da seca, fazendo dela um modo de enriquecimento ilícito, sem levar em conta a tragédia dos flagelados.
Agora mesmo, percebe-se esforço no sentido de tirar proveito político desta situação, inclusive a partir do próprio governo do sr. Fernando Henrique Cardoso. O lógico, o racional até, seria que o atendimento aos flagelados fosse repassado de imediato aos Estados e até aos municípios. Na verdade, o mecanismo mais simples seria o inverso ao que se está anunciando: deveria se autorizar os municípios a atender já os flagelados; caberia aos Estados implementar este atendimento, inclusive com água de graça. Quanto à União, seu papel seria o de repassar os recursos, conforme fossem solicitados.
A adoção de uma solução ao contrário é justificada com a preocupação do governo diante da opinião pública internacional. O presidente não quer ser novamente criticado, como ocorreu com o atraso nas medidas para o combate ao incêndio em Roraima. Todavia, a prioridade número um deveria ser é com os brasileiros que estão passando fome no Nordeste. A situação deveria ter provocado ação urgente do governo, as cestas básicas já deveriam estar lá, os caminhões-pipa teriam de estar distribuindo água, ao menos para a comida. Diante do quadro que já se mostrou da miséria na região, o que se fazia necessário era a criação de pontes aéreas com alimentos, remédios, roupa, tudo o que os flagelados carecem. Se o governo federal, que tenta se mostrar tão preocupado com a situação, não queria que houvesse apoio aos saques, precisaria ter agido com a celeridade possível.
Comentando a situação da saúde no Brasil, o ex-ministro Adib Jatene afirma que a prioridade do governo é a economia e não a saúde. A área econômica não consegue entender os problemas da pobreza, assinala com rara percepção. É o que se vê claramente neste episódio, quando o presidente, ao invés de exigir maior rapidez para o atendimento aos brasileiros que estão morrendo de fome, sai por aí acusando tais ou quais entidades. A impressão mesmo é a de que não se percebe, nos escalões governamentais de Brasília, o significado da fome ou da miséria. Não existe sensibilidade nem diante das imagens que estão sendo mostradas, de uma realidade que não pode ser posta em dúvida. O saque não vai resolver o drama dos flagelados. Todavia, a inércia de quem deve atendê-los e a demora em prestar socorro são piores até do que a justificativa aos saques.





