Desde que surgiu na face da Terra, o ser humano agiu sobre o ambiente com a mais plena irresponsabilidade, dando a impressão de que considerava infinitos os bens disponíveis para sua sobrevivência. Em realidade, durante a pré-história e mesmo muitos anos na fase da História, faltou até consciência sobre a situação, não havia conhecimento suficiente ou percepção para os males da ação predatória. Todavia, a evolução do entendimento, a constatação de que o ser humano estava destruindo seu ambiente de vida, criando com isto condições até para seu próprio desaparecimento do planeta, não parece ter exercido muita influência sobre ponderável parcela da humanidade, que persiste nas práticas destrutivas a que chama de ‘necessidades de sobrevivência’.
Não satisfeito de poluir a terra, o ar, o clima, o homem também lançou sua atividade predatória sobre os oceanos, que ocupam a maior parte da área da Terra. Para muitos, trata-se de um patrimônio da humanidade, uma reserva que poderia garantir alimento e vida para uma população crescente. Infelizmente, porém, a ação humana em relação à porção líquida do planeta traduz a total falta de sensibilidade. Informe apresentado durante a Conferência Internacional sobre a Crise dos Oceanos, organizada pelo Fundo Mundial para a Natureza (WWF), realizado em Lisboa, assinala que a ‘Crise dos Oceanos’ coloca em perigo a sobrevivência da humanidade. A Comissão Mundial Independente sobre Oceanos aconselha no documento intitulado ‘O oceano, nosso futuro’, uma mudança radical na exploração dos mares e oceanos. O informe, elaborado por 40 especialistas de 35 países, dirigidos pelo ex-presidente português Mario Soares, será apresentado no próximo mês, em Nova York, durante os debates da Assembléia Geral das Nações Unidas. O documento se apresenta como um ‘‘apelo prático e realista à consciência dos cidadãos do mundo em favor de uma melhor administração dos oceanos e das regiões costeiras’’, assinala Mario Soares.
O informe propõe, entre outras medidas, a criação de um ‘‘observatório mundial do oceano’’ e a realização, o quanto antes possível, de uma conferência da ONU sobre o tema. Soares, que apresentou este informe em Lisboa por ocasião da Expo-98, espera que o grito de alerta seja levado a sério pelos governos e as organizações internacionais. Mas, antes de tudo, conta com a tomada de consciência e com a mobilização da opinião pública mundial, que ‘‘deve pressionar os governos para que estes atuem’’. Considerados inesgotáveis durante muito tempo devido à sua imensidão (71% da superfície do globo), os oceanos sofrem hoje pressões que preocupam muito os especialistas da Comissão, depois de três anos de trabalhos dedicados a estudar os problemas do mar. Estas pressões vão desde a superexploração dos recursos pesqueiros, passando pela poluição e chegando ao reaquecimento climático devido ao efeito estufa.
Interessante notar na conclusão deste trabalho a observação específica sobre o reaquecimento climático, que pode provocar um aumento do nível do mar (até 50 cm no século XXI) e perturbar o papel regulador térmico dos oceanos. É mais um dos muitos problemas criados pelos homens, que teimam em não perceber o mal que estão fazendo sobre seu próprio habitat. Há anos são realizadas conferências visando forçar uma redução na emissão de gases poluentes. As nações mais ricas (e mais poluidoras), negam-se a considerar qualquer mudança em suas atitudes. E, com isto, não só ameaçam os oceanos, mas levam o mundo a uma situação calamitosa, ameaçando a própria sobrevivência do homem.

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