"Vacina pouca, meu braço primeiro". A frase se popularizou neste ano para mostrar o modo de pensar dos fura-fila da vacina contra a Covid-19. No Brasil, surgem a toda hora denúncias de pessoas que agiram deliberadamente para passar na frente de integrantes dos grupos prioritários e receberem a imunização.

A vacina foi desenvolvida por cientistas em tempo recorde e ainda há muitos pesquisadores trabalhando para colocar à disposição de todo o mundo novos imunizantes. Esse é considerado o modo mais eficaz de proteção contra o novo coronavírus e é compreensível que a cada dia aumentem as expectativas para que ela seja distribuída em larga escala.

No Brasil, os primeiros a receberem foram os idosos com mais de 75 anos e profissionais de saúde. Na sequência, os serviços públicos vêm diminuindo gradativamente a idade dos convocados e abrindo para outros grupos prioritários.

Enquanto o esquema de vacinação vai correndo, vez ou outra surgem as denúncias de furas-fila. No Paraná, o TC (Tribunal de Contas do Estado) está atuando com equipes de inteligência para apurar irregularidades no cumprimento das regras dos grupos prioritários de vacinação contra a Covid-19.

Infelizmente, não nos surpreende o fato de que a investigação já identificou agentes públicos, mais especificamente um prefeito, três ex-prefeitos e 26 vereadores que furaram a fila.

A apuração do Tribunal de Contas aponta que, em muitos casos, vereadores e prefeitos, mesmo que já não estejam no mandato, mantêm algum poder nas administrações locais e conseguem passar à frente.

Com as apurações, serão instaurados processos administrativos nos quais poderão caber multa, inabilitação para que as pessoas exerçam cargos e, se o ente for ordenador de despesas, tenha a avaliação das contas rejeitada. Ao mesmo tempo, todos os dados estão sendo encaminhados para o MP (Ministério Público), que poderá ajuizar outras ações de improbidade e sanções.

Qualquer pessoa pode denunciar um caso de fura-fila da vacina, até mesmo sem identificar-se. A Controladoria-Geral do Estado (CGE) colocou à disposição sua estrutura da Ouvidoria-Geral para recepcionar essas denúncias e as situações denunciadas são encaminhadas ao MP.

É incrível que no Brasil o poder público tenha que gastar dinheiro e tempo de seus servidores, montando uma estrutura para driblar as estratégias ardilosas de quem não quer esperar chegar a sua vez para tomar o imunizante. O Senado chegou a aprovar uma lei que prevê prisão de até três anos para quem furar a fila de prioridade para a vacinação contra a Covid-19.

É lamentável que os padrões éticos e solidários de parte de nossa sociedade estejam tão em baixa a ponto de permitir que se aproveitem de falhas no sistema, do famoso "jeitinho"ou de privilégios e arrogância para levarem vantagens, ignorando os direitos e a saúde do próximo.

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