Um pouco escondidas no meio de tantos fatos de maior destaque, as notícias sobre as acusações de compra de votos com vistas à aprovação da emenda da reeleição, feitas com enorme destaque à época, trazem à lembrança mais um entre tantos casos de corrupção denunciados e não punidos. Não se trata de algo inédito na história desta complicada democracia brasileira mas é, sem dúvida, um tema para meditar às vésperas do ano que terá esta grande novidade, no capítulo político: a possibilidade de reeleição para o presidente, governadores e prefeitos (estes últimos devendo aguardar o pleito do ano 2000).
O mais grave no episódio, sem dúvida, é a impunidade. Não foi aquela a primeira (e infelizmente não será a última) denúncia sobre corrupção no meio político. Todavia, já passou do tempo de se começar a ver mais do que acusações, a averiguação de cada caso e a competente punição dos responsáveis. A redemocratização, no Brasil, ocorrida com a eleição indireta de Tancredo Neves - que não chegou sequer a assumir - marcou o início de uma fase fantástica na vida nacional. A liberdade recuperada provocou uma sequência imensa de denúncias sobre fraudes, corrupção, abusos sem conta. Nunca se havia visto, nem mesmo nas épocas anteriores de vigência da democracia, uma série tão ampla de denúncias. Mas, curiosa e lamentavelmente, as consequências de tudo isto foram mínimas. A impressão era a de que existia liberdade para acusar, mas que isto não implicava, necessariamente, em algum tipo de punição, como se a simples denúncia pública fosse em si um tipo de penalidade.
Com a explosão do esquema PC, alguma coisa parecia ter mudado. A reação à época foi tão violenta que até o presidente acabou sendo afastado. Fernando Collor renunciou para evitar a aparentemente inevitável cassação, o que porém não impediu a suspensão de seus direitos políticos. Paulo César Farias, tornado no maior culpado de toda a história, acabou até preso. Depois, veio o escândalo dos chamados ‘anões do Orçamento’ e, uma vez mais, a esperança se reativou. Alguns parlamentares acabaram punidos, perdendo os mandatos. Mas, até agora, esta foi a maior penalidade aos políticos, tanto no que tange ao ex-presidente como no capítulo dos parlamentares. Não se falou em ressarcimento do prejuízo público, nem mesmo se ouviu falar em bloqueio de bens ou coisa semelhante. Uma punição, no mínimo, pela metade.
Já em relação à denúncia que envolveu parlamentares no episódio da reeleição, nem isto aconteceu. Um dos acusados, inclusive, o deputado federal João Maia, foi autor de uma das frases de maior destaque neste ano: ‘Na Câmara, não há anjos’. E, com isto, pensa certamente liquidar qualquer acusação. Mas o eleitor brasileiro, certamente, não está nem esteve interessado em escolher anjos para representá-lo. O que quer, certamente, é ter representantes dignos, honestos e patriotas. Não é pedir demais, aparentemente. Todavia, diante desta falta de consequência, da impunidade que continua a parecer uma realidade invencível, pretender que os políticos sejam, no mínimo, honestos chega a ser quase uma utopia.
Neste ano que vai começar, os brasileiros poderão fazer o que os políticos não quiseram. Além de eleger (ou, caso queiram, reeleger) o presidente e os governadores, o eleitorado também vai renovar a Câmara Federal, as Assembléias Legislativas e um terço do Senado. É o momento maior do exercício do poder pelo seu detentor: o povo. É a hora em que o eleitor pode dar a resposta à impunidade, ao abuso, ao exercício fraudulento do mandato, negando o voto a quem não mereça sua confiança. É simples e funciona.

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