Os metalúrgicos do ABC paulista, com uma tradição histórica de luta, inclusive na época da repressão mais terrível, aceitaram redução de salários e de jornada de trabalho para fechar um acordo com os empresários e garantir a manutenção dos empregos. Uma opção colocada era a de demissão imediata de 7.500 trabalhadores se o acordo não fosse feito, ao mesmo tempo em que os demais empregos também estariam na balança. Com o entendimento, não só não haverá demissões como também os trabalhadores estarão garantidos até o novo milênio. O acordo revela, principalmente, uma evolução entre as partes e uma visão muito realista por parte dos trabalhadores, que sentem a gravidade do momento e entendem que nesta hora é preciso até um certo sacrifício. Ademais, não se pode deixar de reconhecer que o que ajudou nisto foi a quase estabilidade da economia brasileira. Com efeito, a inflação do ano todo é baixa, os preços têm se mantido estáveis, de tal modo que não se obtiver reajuste agora não chega a prejudicar o nível de vida do trabalhador. Uma pequena perda, naturalmente, pode implicar em certa queda na situação das famílias dos metalúrgicos. Entretanto, ainda constitui um sacrifício possível e uma solução inteligente para garantir o bem maior que é o emprego para todos os envolvidos.
Trabalhadores e empresários mostraram, uma vez mais, elevação e inteligência diante de uma situação grave. Perceberam que nesta hora o interesse de ambos é comum e que uma postura radical acabaria por prejudicar a todos. Na verdade, esta percepção é algo que vem acontecendo há tempos no Brasil. Empregados e patrões começaram a notar que estão ambos do mesmo lado e com interesses comuns. Em muitos setores se nota como os empresários entenderam que uma política de arrocho salarial é inconveniente, inclusive porque empregados que ganham pouco, não consomem.
É vital injetar dinheiro na economia, melhorar salários para que o trabalhador possa atender às suas necessidades e provocar o grande giro econômico. Infelizmente, porém, a crise que o País vive tornou as coisas mais complexas, levando até ao tipo de solução agora encontrado pelos metalúrgicos. Não é a melhor, mas revela que os dois lados perceberam que estão juntos e que precisam unir esforços para superar as dificuldades. O que é lamentável em tudo isto é que a terceira parte da equação, o governo, continua a se mostrar insensível e, pior, ignorante diante da realidade que, em grande parte, é reflexo da falta de administração correta por parte dele. De fato, salta aos olhos que ponderável parcela das dificuldades que o País atravessa decorre dos erros dos governos, que não cumprem sua parte neste processo de luta pela estabilidade.
O fato real a atestar esta insensibilidade oficial é o anúncio, feito quase que ao mesmo tempo em que se informava sobre o acordo dos metalúrgicos, de que no final do ano o governo vai aumentar o IPI sobre os veículos, restabelecendo as alíquotas que vigoravam até recente redução. O anúncio provocou natural reação dos empresários do setor, que já anteciparam que não terão como evitar o repasse para o preço final dos veículos. Se com impostos mais baixos e o preço menor a situação do mercado já é ruim, é fácil antecipar que o quadro vai ficar pior. Aparentemente, só o governo brasileiro não percebe que aumento de impostos é a pior alternativa neste momento. Não vai sequer resultar em melhoria na arrecadação, porque simplesmente provocará redução nas vendas. Com isto, criará mais problemas no momento em que deveria estar tentando somar com trabalhadores e empresários para reduzir a crise.

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