Editorial - O exemplo da Paixão
Para os cristãos, a Sexta-feira Santa é um dia destinado à meditação sobre a morte de Jesus Cristo, o fato que encaminha para o grande Mistério da Ressurreição, que constitui o ponto basilar da fé. Pois, como assinalou Paulo, se Cristo não ressuscitou, vã é nossa fé. Com sua morte, transformou o símbolo da dor e da mais cruel humilhação de sua época em sinal de Redenção. Jesus morreria, como antecipou em muitas passagens dos evangelhos, para ressurgir dos mortos e fundar um novo sentido para a vida na Terra. Assim, a data em que se rememora sua morte é um momento para a reflexão sobre a vida em todos os seus aspectos.
Curiosamente, em especial em países predominantemente cristãos, mesmo os que não professam a crença em Cristo e até os que se declaram agnósticos ou mesmo ateus sentem a data como um momento de reflexão. Não é um feriado como tantos outros, mas uma data diferente e cheia de significados que extravasam as fronteiras religiosas. O sacrifício da morte escolhida como término da missão terrena de Cristo, antecedida de torturas e humilhações, dá o que pensar.
A começar por se tratar da morte de um ser que poderia ter escolhido morrer de outra maneira. A crucificação é uma das formas de suplício mais horripilantes que os homens inventaram para punir seus semelhantes, na época reservada a prisioneiros de guerra escravizados que tentassem fugir. A decisão de Jesus transcende o entendimento puramente humano. Em outro aspecto até hoje pouco entendido, ele se dirige constantemente ao Pai - não só na cruz, mas durante toda sua pregação na Terra - para assim estabelecer nitidamente sua missão de Enviado.
Este é um tema para longa meditação. Jesus é um ser especial, nascido judeu mas sem nenhuma limitação religiosa ou racial, e que não era Deus. Deus é o Pai, e Jesus um filho em carne e osso - como todos nós - nascido de um casal pobre e também especial da tribo de Davi. Aquele a quem chamamos de Nosso Senhor é na verdade nosso irmão e mestre. Esta é outra maravilha que mal podemos compreender.
Mas é possível entender que na morte Dele a Luz superou as trevas, surgindo dessa superação uma nova e imponente mensagem de amor que transcende a vida e se projeta para o Infinito. Jesus transformado em Cristo não é mais judeu, não é mais um ser no sentido natural da palavra. Nenhum ser deste mundo pediria ao Pai que perdoasse os que o matavam por não saberem o que faziam. Jesus Cristo é uma entidade sobrenatural que nos veio dar o testemunho da Luz.
A Luz venceu as trevas porque, ao contrário do que queriam os opositores de Jesus, ele tornou-se eterno também na Terra, assim como no Céu. E tanto isto é verdade que o principal ensinamento de Jesus - a solidariedade, o respeito, o amor - está presente na legislação de todos os países e na Carta dos Direitos Humanos da ONU, escrita 2 mil anos depois.
Todos os parâmetros da vida do homem na Terra mudaram. A Paixão seguida da Ressurreição, que lhe dá um sentido diverso da dor, fundou uma nova sociedade, lentamente, pacificamente. O Império Romano morreria de velho 450 anos depois, sem uma só gota de sangue, depois de ter derramado o Dele e de milhares de cristãos para seu divertimento. Há os que dizem que não conhecem Aquele que morreu na Cruz, mas todos, indistintamente, estão envolvidos pelo Mistério daquele dia.
Os limites da vida nos são dados para avaliarmos o que não tem limite. E neste dia, lembrando-nos de Jesus em Cristo e de Cristo em Jesus talvez possamos tocar nos beirais do ilimitado. Não é preciso ser santo, e a dispensa disto é um dos motivos da perpetuidade de sua mensagem. Basta ser o que ele pediu: pequeno como uma criança e grande como o amor.





