Em meio à turbulência que atinge a economia mundial, golpeando profundamente o Brasil, uma boa notícia, enfim: a Coréia do Sul está ressurgindo das cinzas e deverá crescer 2% este ano, depois de ter encolhido 5,5% o ano passado. A Coréia do Sul foi um dos ‘tigres asiáticos’ mais atingidos com a derrocada financeira da Ásia, iniciada em julho de 97, quando a Tailândia praticamente foi à lona. Com economias, resguardadas as devidas proporções, semelhantes e baseadas num intenso esforço de industrialização, os ‘tigres’ foram as primeiras vítimas coletivas da globalização econômica, e a crise que os atingiu alastrou-se para o resto do mundo. O Japão, pela proximidade territorial e por ser o financiador do sistema produtivo dos ‘tigres’ foi, entre os países mais industrializados do mundo, o que sentiu com mais intensidade os efeitos da crise asiática.
Pois bem, o Fundo Monetário Internacional (FMI) acaba de rever suas projeções para a Coréia do Sul: a inflação, que antes de esperava atingisse 5% este ano, deverá ficar em 3%. No ano passado, foi de 7,8%. O país obteve naquele período um superávit comercial de 40 bilhões de dólares, resultado que deverá ser repetido este ano. Os sul-coreanos, tal como nós, sofreram uma desvalorização brutal de sua moeda, o won, em relação ao dólar (no ano passado, essa desvalorização atingiu quase 30%). Devido à recuperação da economia sul-coreana, técnicos do Fundo passarão a monitorar as contas daquele país a cada semestre, e não mais trimestralmente, como vinham fazendo desde a liberação, em dezembro de 97, do pacote de ajuda de R$ 58,35 bilhões.
O FMI e o governo sul-coreano podem - e devem - comemorar esses resultados, embora os demais ‘tigres’ ainda estejam sentindo duramente os efeitos da crise. O Japão luta para não ser atingido pela estagflação, a mais terrível das doenças econômicas, e a Tailândia, Indonésia e Cingapura equilibram-se com dificuldade. A Malásia, outra vítima, recorreu a um mecanismo heterodoxo para evitar a sangria de suas reservas, que foi a adoação de um regime de carência para que os investimentos estrangeiros pudessem retornar a seus países de origem, mas acaba de anunciar que irá flexibilizar essa medida, de maneira gradual. O recuo é compreensível: está para vencer esse prazo de carência e o governo malaio teme a fuga maciça de capitais internacionais.
A recuperação econômica da Coréia do Sul é, sem dúvida, uma boa notícia entre tantas ruins, mas é preciso ressaltar: ela só foi possível porque o país entrou em profunda recessão - a maior desde sua emancipação, na década de 50 - e sobretaxou de tal maneira os produtos importados que os tornou inviáveis. Um dos pilares da expansão econômica sul-coreana foi sua política agressiva de exportação de bens de consumo e de capital, mas, desde a crise, o país praticamente já não exporta mais.
A recuperação econômica da Coréia do Sul pode fornecer elementos essencias para que o Brasil também supere, e logo, a crise. Elementos que devem ser levados em consideração neste momento em que o governo e o FMI negociam a revisão do acordo assinado no ano passado. A receita do Fundo para o Brasil e a Coréia do Sul não é, naturalmente, a mesma, mas tem como âncora a desaceleração da atividade econômica para impedir a retomada da inflação. Essa desaceleração, sentida já no ano passado, deverá se acentuar ainda mais este ano: projeção do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas estima que nosso Produto Interno Bruto deverá cair 3% em 99 em relação ao ano passado. O Brasil se prepara para um ano especialmente difícil, mas, como os sul-coreanos, podemos - e vamos - superar as dificuldades e abrir enfim os caminhos perenes do desenvolvimento.

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