Editorial - O Executivo sob suspeita
O fato lembra o célebre ditado popular que diz que depois da porta arrombada, tranca nela. Com efeito, diante das reações face ao escândalo produzido pelas declarações do ex-secretário-Geral da Presidência, Eduardo Jorge, com estilhaços atingindo perigosamente o próprio Governo Federal, o presidente Fernando Henrique Cardoso determinou a execução de uma operação interministerial para acelerar as investigações sobre o desvio de R$ 169 milhões das obras do Fórum Trabalhista de São Paulo. Entre as medidas sugeridas pelo presidente está a prisão do ex-juiz Nicolau dos Santos Neto e o rastreamento do dinheiro, inclusive no exterior, com o seu retorno aos cofres públicos. Como o escândalo é antigo e o ex-juiz está desaparecido há tempo, a impressão é a de que o Executivo apenas se interessou pela questão no momento em que se sentiu ameaçado pelas implicações das declarações do antigo auxiliar direto do presidente. Na verdade, o problema não é da alçada do Executivo, incumbindo ao Judiciário realizar tudo o que envolve o problema. Entretanto, esta postura do presidente da República pretende deixar clara a disposição de se ir até o fim nas investigações, com consequentes atos que ajudem não apenas no esclarecimento da verdade o que implica em saber sobre todos os envolvidos na fraude , mas também ao ressarcimento dos cofres públicos, o que é fundamental. Fica igualmente muito clara a intenção do presidente de demonstrar que o Executivo não estaria envolvido nas falcatruas.
O que parece muito claro, porém, é que nem Executivo nem o Legislativo vão escapar indenes do episódio. É possível que se comprove que o ministro Martus Tavares agiu em boa-fé ao enviar ao Congresso o pedido do Tribunal Superior do Trabalho relativo aos recursos para a construção da sede do TRT paulista. Do mesmo modo, a bancada paulista na Câmara Federal, que incluía alguns membros da oposição, pode alegar que apenas se uniu para defender a dotação de recursos do interesse do Estado, sem saber das falcatruas do então juiz Nicolau dos Santos Neto. Todavia, persiste a inépcia dos que deveriam ter maior cuidado no manuseio e liberação de recursos públicos. Podem escapar da pecha de corruptos, que é inegavelmente grave, mas seguramente acabarão considerados incompetentes.
A grande maioria da população, aliás, quer que o Executivo consiga mesmo provar sua inocência no episódio, até porque qualquer outra solução produzirá um clima muito grave. Vale rememorar que a comparação feita pelo procurador federal, Luiz Francisco de Souza, colocando no mesmo barco o ex-secretário- geral da presidência, Eduardo Jorge, e Paulo César Farias, o indigitado ex-caixa da campanha de Fernando Collor de Mello, traz sérias recordações. As ações de PC Farias acabaram ajudando na derrubada do ex-presidente Collor. De repente, fica no ar a idéia de que algo semelhante pode acontecer a FHC, ainda mais lembrando que Eduardo Jorge foi quem coordenou as campanhas eleitorais do atual presidente.
A recuperação da imagem do Governo Federal, neste momento, representa fato da mais alta relevância. Não se trata de pretender que FHC apresente índices melhores de popularidade, o que parece difícil de conseguir atualmente, mas de se ter de fato a convicção de que à incompetência que se observa em alguns atos deste governo não se pode agregar à de improbidade, o que produziria um impacto negativo e assustador junto ao povo. O Executivo Federal precisa responder rápida e convincentemente às dúvidas que surgiram com este novo escândalo. Quanto ao Judiciário, tem também a tarefa de agilizar o trabalho, a fim de esclarecer de vez o episódio e punir os envolvidos na maroteira.





