Editorial - O drama do trânsito
O drama do trânsito
O elevado total de acidentes ocorrido no final de semana no Estado (que não teve nenhum feriado a justificar um eventual aumento no movimento), com um número enorme de mortos e feridos, chama de novo a atenção para o trânsito nas cidades e estradas, um dos mais sérios problemas da atualidade nacional, para o qual não parece haver solução à vista, apesar de uma legislação cada vez mais dura. O tempo, efetivamente, foi muito ruim nos últimos dias, houve chuvas seguidas que produziram condições adversas nas estradas. Entretanto, por mais que se considere a situação complicada que o mau tempo causa, é certo que não se pode aceitar de modo passivo esta situação, ainda mais quando se percebe - e o noticiário diário deixa isso bem evidente - que o Brasil continua a perder, por anos, milhares de vidas devido a ocorrências trágicas.
O atual Código de Trânsito Brasileiro, que sucedeu a um que foi apresentado, à época de seu lançamento, como bastante duro, introduziu algumas inovações consideradas importantes, tanto no que diz respeito às multas como no que tange a normas relativas ao melhor desempenho no trânsito, inclusive no que respeita aos próprios veículos. No início da vigência do atual documento, houve uma queda real no número de acidentes e, por extensão, de feridos e mortos. Mas o que se observa, ultimamente, é uma aparente volta aos números antigos. Para alguns, recentes medidas de anistia para multas e outras penalizações adotadas em alguns Estados serviram para fazer com que os motoristas se tornassem menos cuidadosos. Para outros, o quadro apenas reflete o crescimento do movimento, e do perigo, com mais veículos em circulação em ruas e estradas sem condições e sem atendimento.
Seguramente, o agravamento da situação - o aumento do número de acidentes, a elevação do número de feridos e de vítimas - resulta da soma de todos os fatores assinalados e de muitos outros. Como o da falta de aplicação real de algumas exigências do Código, a preocupação de alguns em transformar as multas em fonte de renda, a falta de uma efetiva política de educação e conscientização, a irresponsabilidade de muitos que assumem o volante e dos que o entregam a pessoas incapacitadas. É possível, sem dúvida, listar uma infinidade de justificativas, o que, porém, não resolve o problema, na medida mesmo em que persiste uma visão deturpada do assunto.
Em relação ao trânsito, como de resto no que tange a toda a violência que cerca a vida humana nos últimos anos, o que se pode perceber é que o cidadão está se acostumando a isso. Os milhares de mortos nas ruas e estradas, todos os anos, são vistos como uma resultante natural de situações insuperáveis. As estatísticas insistem em considerar os eventos como resultado de acidentes e essa conclusão elide todas as outras considerações. Todavia, uma análise mais aprofundada poderá revelar que muitos (talvez a maioria) de tais acidentes talvez não devessem receber tal classificação fatalista devido às próprias circunstâncias.
É elevado o total de vítimas em decorrência de falhas técnicas e estruturais em ruas e estradas. É grande o número de vítimas da imprudência, da imperícia, da negligência que, pela lei, são fatores agravantes da responsabilidade. Urge que, ao lado de uma adequada e rígida legislação para o trânsito - que seja cumprida, sem anistia, sem exploração pecuniária, mas com uma visão do problema todo que enfoca -, haja uma real disposição de se ampliar a conscientização coletiva sobre este imenso drama que atinge cada vez mais famílias brasileiras.





