Editorial - O destino da agricultura
O bom resultado econômico da agricultura este ano, no Paraná e no Brasil, contrasta com o desemprego no campo, que aumentou significativamente: 800 mil brasileiros perderam o emprego no campo desde o início do Plano Real, informa o presidente da Confederação Nacional da Agricultura, Antonio Ernesto de Salvo, em balanço sobre as atividades do setor. Segundo Salvo, mais 100 mil vão ficar sem trabalho no final da safra 97/98. Isto é tanto mais grave quando se sabe que o setor poderia oferecer uma excepcional alternativa ao País neste momento de crise, notadamente no que tange ao emprego.
O presidente da CNA aponta a redução da área plantada como a principal causa desta situação. O ano só não foi ruim para os proprietários porque os preços salvaram a lavoura. E no caso do café e da soja, assinalou, deve-se agradecer à Lei Kandir, que isentou os produtos primários na exportação. Quem não gostou foram os governos estaduais, especialmente o do Paraná, que perdeu R$ 300 milhões de receita com a isenção, segundo o Palácio Iguaçu. Mas o prejuízo da Receita estadual e das famílias desempregadas poderia ser muito menor se a área plantada tivesse sido maior.
Seria difícil reverter o quadro? A resposta do presidente da CNA é não. Poderia ser muito fácil e rápido, bastando que as autoridades do setor tomassem medidas de estímulo à produção, incluindo até mesmo uma redução tributária mais ampla. Os produtos vendidos no mercado interno pagam impostos demais: a população brasileira está comendo 34% de impostos quando senta à mesa para fazer a refeição. O percentual também é do presidente da CNA.
Ele só não tem razão quando dá a entender que o Plano Real tem culpa no cartório. Na verdade, os ajustes que toda a economia brasileira - agricultura, indústria, comércio e serviços - está tendo de fazer para viver sem inflação são indispensáveis e inescapáveis. Não se derruba uma inflação de 40% ao mês para 4% ao ano sem ajustes profundos e amargos. Qualquer outro plano teria este efeito colateral indesejado que é o desemprego. O erro não está no Plano, mas na gerência econômica e social do Governo, pois com medidas auxiliares simples e eficazes seria possível minorar as dificuldades da população, especialmente no campo.
A agricultura é o setor que mais sofre com a gerência inadequada do Plano Real porque há muito tempo vinha sendo desconsiderada pelo poder central. O Brasil, nunca é demais repetir, há 50 anos vem fugindo de sua vocação agrícola. Para não ir muito longe, o candidato Fernando Collor de Melo não fez qualquer referência ao campo durante sua campanha e o candidato seguinte, atual presidente, tampouco incluiu a agricultura entre as prioridades anunciadas com os cinco dedos da mão nos palanques eleitorais.
Ambos apenas reproduziram uma tendência - um grave erro - que se propaga desde o início da industrialização do Brasil, na década de 50. Lá se pensava, como hoje ainda se pensa, que a agricultura é uma atividade menor e pouco multiplicadora. E isto só é verdade se ela for submetida a um processo de completo e sistemático abandono.
Que é fácil fazer a agricultura reagir pode-se ver pelos efeitos de uma lei que não tinha por objetivo nem aumentar a área plantada nem melhorar a produtividade e a qualidade, mas tão somente a balança comercial brasileira. A Lei Kandir já produz resultados. Pífios, se pensarmos que a agricultura pode fazer muito, muitíssimo mais, e não só pela balança comercial. O campo é comida, emprego, indústria. O campo é a melhor e mais rápida forma de desfavelizar todas as grandes cidades brasileiras, de promover uma inimaginável desconcentração urbana e fazer a maior distribuição de renda da história econômica do mundo.
A agricultura é a grande solução para os problemas que a irresponsabilidade do poder público e a industrialização impensada nos causaram. Hoje, é um desafio e para vencê-lo as lideranças da agricultura e a sociedade organizada devem usar toda sua força e mobilização.





