Editorial - O desperdício
O Brasil deverá perder este ano 1,2 milhão de toneladas de soja, no valor equivalente a R$ 321 milhões, por desperdício na colheita. A estimativa é da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que há 20 anos desenvolve um programa para reduzir os níveis de perdas nas colheitas. A média nacional de perdas é de quase duas sacas (1,7) de soja por hectare, quando o aceitável é uma saca. Vinte anos atrás a perda nas lavouras de soja era de quatro sacas por hectare.
A situação melhorou, mas os números ainda são grandes. Para reduzi-los ainda mais, a Embrapa está distribuindo copos medidores que mostram o volume de perdas, juntamente com um manual que indica os procedimentos que devem ser adotados para evitar o desperdício. Entre suas principais causas estão a má regulagem das colheitadeiras e sua operação inadequada.
A luta contra o desperdício no Brasil, tanto no campo como nas cidades, é um desafio gigantesco. Suas causas remontam aos tempos do Descobrimento, quando se declarou que aqui era a terra da fartura. Nos tempos coloniais, até o começo deste século, a grande extensão dos latifúndios e o atraso tecnológico se encarregaram de aumentar as perdas. Depois, esse mesmo atraso uniu-se à falta de informação e educação para multiplicar o desperdício num mercado crescentemente competitivo.
O trabalho que a Embrapa está fazendo e que se estende às lavouras de milho e arroz é uma iniciativa da maior importância que precisa ser levada a outros setores. Pois as perdas não se resumem à colheita. Elas continuam no transporte, seja pelas condições inadequadas dos caminhões ou pelo estado das estradas, e chegam até os portos de embarque.
Num país em que milhões de crianças, jovens e adultos passam fome, o desperdício de alimentos é um crime, moralmente falando, e uma estupidez, sob o aspecto econômico. Quando ministro da Agricultura, o senador José Eduardo de Andrade Vieira lançou uma campanha nacional contra o desperdício no campo. Esse esforço precisa ser renovado, nesta e em outras áreas da economia, numa hora em que o País necessita exportar cada vez mais para reequilibrar sua balança comercial.
Comenta-se muito sobre a necessidade de aumentar a produção, em todos os setores, para reduzirmos os altos custos de comercialização de tudo o que produzimos aqui. De fato, o chamado custo Brasil - que não é causado somente pelo excesso de impostos - torna um grande número de produtos brasileiros duas ou três vezes mais caros aqui do que no exterior. Um amplo trabalho de combate ao desperdício reduzirá custos e aumentará receitas, como se tivéssemos aumentado a produção.
O País ganharia muito com uma campanha de conscientização e a disseminação de esforços como os da Embrapa. Vai-se perceber, rapidamente, que a redução do desperdício nacional é uma grande fonte de renda. No caso da soja, equivalente a 4% da produção recorde estimada para este ano, de 31 milhões de toneladas.





