A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB - escolheu para tema da Campanha da Fraternidade deste ano o desemprego, com o lema ‘‘Sem trabalho... por quê?’’ Há 36 anos, durante a Quaresma, a CNBB apresenta a Campanha da Fraternidade, destacando sempre um tema social de relevância, que é meditado e analisado ao longo do período destinado pela Igreja católica à reflexão religiosa em face da Semana Santa. O tema da campanha deste ano, o direito ao trabalho, foi escolhido em 1997, quando a campanha foi a favor dos ‘encarcerados’. No ano passado, a campanha tratou do direito à educação. O tema para o ano 2000 também já está escolhido: ‘Dignidade humana e paz’, com o lema ‘Novo milênio sem exclusões’. O documento-base da Campanha trata o neoliberalismo como um sistema nefasto, que tem como dogmas a eficiência e o lucro, e pede a solução do problema da dívida externa dos países pobres.
Inegavelmente, o tema escolhido pela CNBB para reflexão deste ano é atual e dos mais importantes. O desemprego constitui hoje no Brasil - e em grande parte do mundo - um dos mais sérios problemas, produzindo como resultados o agravamento de todos os demais dramas sociais que envolvem o homem. A intenção da Igreja católica no debate da questão é a de ajudar a encontrar caminhos que possam modificar uma realidade dramática. De fato, a falta de emprego, a impossibilidade de conseguir meios para garantir a sobrevivência própria e dos dependentes, constitui um drama real e complexo que precisa ser enfrentado, e não apenas como o espelho de uma preocupação social. Este desafio deve ser superado para assegurar aos homens, independente de suas crenças, as condições de dignidade às quais todos têm direito.
A contribuição que pode ser dada pela Campanha da Fraternidade ao debate do tema e, principalmente, à busca de soluções, é imensa. Importa, porém, que a análise vá fundo, buscando mais do que os chavões que ultimamente têm sido repetidos e que não conduzem a nada. É básico perceber que o desemprego neste momento no Brasil, como no exterior, decorre de uma transformação imensa que o mundo vem sofrendo e tem muitas causas. Considerar, por exemplo, apenas a globalização ou o neoliberalismo como as causas do problema reduz a própria análise e, por consequência, também limita o encontro de conclusões e de alternativas para este drama. Ademais, como enfatizou o cardeal-arcebispo de São Paulo, o problema do desemprego não é apenas o drama daqueles que buscam trabalho, nem também é a dificuldade da classe trabalhadora. O que se tem é um desafio que envolve trabalhadores, empregados ou não, e empresários de todos os níveis. Mais ainda, é uma questão que precisa também ser enfocada pelos governantes, tanto no que diz respeito à esfera legislativa como em relação a linhas de ação mais diretas dos Executivos.
Os governantes precisam estimular o investimento produtivo de todos os modos possíveis, inclusive - no caso específico do Brasil - adotando novas políticas que reduzam o peso dos juros, hoje um sério problema para todo o tipo de atividade. Os empresários precisam abrir portas ao diálogo para, junto com o segmento trabalhador, encontrar fórmulas destinadas a ampliar a oferta de emprego, levando em conta inclusive o crescimento populacional, a maior perspectiva de vida dos cidadãos, o que cria também novas necessidades a cada ano. É todo um complexo de medidas e decisões que se entrelaçam e que precisam ser devidamente enfocadas para que haja reais propostas capazes de oferecer soluções duradouras a este grande desafio.

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