O primeiro governante brasileiro a se preocupar com a seca no Nordeste foi D. Pedro II, durante seu longo reinado. O homem que por mais tempo permaneceu como governante no Brasil (cerca de 50 anos) manifestava preocupação com um quadro que à época já era terrível, mostrando disposição e vontade de enfrentá-lo. Que não teve sucesso na empreitada, é fácil perceber. O drama da seca no Nordeste, decorrente, entre outras coisas, da exploração inadequada da terra pelos colonizadores, atravessou o período imperial e adentrou a República, piorando cada vez mais. E não por falta de verbas, discursos, promessas ou garantias de solução.
Ao contrário, o que já se destinou ao Nordeste para a realização de obras de combate à seca, sem falar, naturalmente, do que se envia para a região em épocas de crise aguda - como a recente, quando milhões de brasileiros foram lançados a uma situação de fome -, constitui um valor imenso. Por que é que toda esta vontade política, desde o Imperador Pedro II aos governos presidenciais que se sucederam nestes mais de 100 anos, não deu certo? Esta, sem dúvida, é uma pergunta que deveria ser posta, analisada e respondida, não para servir como crítica aos políticos do passado (embora muitos realmente o mereçam), mas como uma tentativa válida de perceber os erros, sentir os abusos e, como resultado, mudar a forma de enfrentar este desafio que parece insolúvel.
O presidente-candidato Fernando Henrique Cardoso, em viagem pelo Nordeste, anunciou, eleitoralmente, que vai acabar com a seca na região. E, na verdade, não prometeu nada impossível. Acabar com a seca no Nordeste é uma ação possível que não depende sequer de recursos - porque o atual, como muitos outros governos, tem destinado milhões à região -, mas de uma atitude íntegra na aplicação do dinheiro. No passado, falou-se muito na ‘indústria da seca’, nome genérico dado aos grupos que enriqueciam através de todos os meios ilícitos possíveis com os recursos orçamentários repassados ao Nordeste para combater aquele flagelo. Hoje, o termo não é muito usado, mas é preciso, naturalmente, que mude a situação, que haja efetiva e honesta aplicação das verbas, que não ocorram desvios e nem se aproveite da seca como moeda eleitoral ou meio de mais enriquecimento.
Vencer a seca, ainda mais nos tempos atuais, é tarefa plenamente realizável. Estão aí alguns exemplos de trabalho desenvolvido em outros países e que dão certo. Basta observar Israel com a ação que realizou para recuperar o deserto do Neguev, ou a luta dos chineses que, com ínfimos recursos, fazem trabalhos de irrigação fantásticos. A tecnologia está disponível e algumas regiões do nosso próprio Nordeste, beneficiadas por honestos e bem dirigidos trabalhos de irrigação, comprovam que é possível mudar a situação daquela imensa, pobre (até agora) e sofrida região brasileira. O presidente da República, inclusive, visitou algumas importantes obras de irrigação que estão se desenvolvendo ali e que constituem por si o caminho certo para a solução do drama nordestino.
Este é o caminho natural não só para resgatar os nordestinos de uma História de miséria e sofrimento, mas também o modo de melhorar toda a situação do Brasil. Pois na medida em que o Nordeste resolver seu enorme drama e passar a produzir o que pode, haverá uma reversão na miséria e na situação de todo um povo. Assim, o Nordeste, que por décadas foi fornededor de mão-de-obra pobre para o Sul e o Sudeste, poderá se converter em pólo de atração, na medida em que sua realidade se transforma. Com este resgate do Nordeste, será modificada a própria situação social deste imenso país.

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