No 18º Dia Mundial da Alimentação, celebrado ontem, a Organização para a Alimentação e Agricultura das Nações Unidas (FAO) fez um urgente apelo às nações ricas para que apliquem mais dinheiro em agricultura, a fim de que todas as pessoas do mundo possam ter comida. ‘‘Se é para ser alcançado o objetivo de oferecer alimentos para todos, tem de haver um significativo aumento da produção de alimentos e melhoria no acesso à comida’’, afirmou o diretor-geral da FAO, Jacques Diouf, na cerimônia oficial da comemoração. Diouf, que presidiu uma cúpula mundial há um ano em Roma na qual a FAO prometeu reduzir pela metade o número de famintos até o ano 2015, disse que são necessários US$ 15 bilhões por ano para ajudar países pobres a reduzir a fome em seus territórios naquela proporção.
Participando da cerimônia, o rei Birendra, do Nepal, disse que era ‘‘uma ironia 18 milhões de pessoas morrerem de fome a cada ano, enquanto a produção mundial de cereais, se fosse bem distribuída, seria suficiente para atender duas vezes mais o mínimo per capita de sua população’’. O papa João Paulo II enviou uma mensagem aos 150 países que comemoraram a data de ontem: ‘‘Permitir que a expectativa de vida de milhões de seres humanos e comunidades inteiras seja comprimida ou mesmo negada devido à falta de sustento diário é uma clara negação da consciência coletiva da humanidade e constitui uma violação de direitos fundamentais’’, diz o texto lido pelo representante do Vaticano na FAO.
A FAO estima que um investimento anual bruto de cerca de US$ 86 bilhões na produção primária será necessário para aumentar a produção de alimentos nos países em desenvolvimento para que eles possam atender à demanda até 2010. Como a população do mundo deve crescer dos atuais 5,7 bilhões para 8,7 bilhões até 2030, a FAO pediu aos governos que intensifiquem a produção de alimentos.
O Brasil é um país que tem milhões de famintos e fortes contrastes de riqueza e pobreza, mas poderia contribuir de uma forma expressiva para o aumento da produção de alimentos no mundo e, assim, reduzir a fome aqui mesmo e em muitas partes do planeta. Possuímos grandes extensões de terras férteis e baixa produtividade por falta de tecnologia e investimentos. Temos órgãos publicos e privados voltados para a agricultura, mas temos pouca cultura e conhecimentos modernos no meio rural. Por isso, não empregamos sequer metade do nosso potencial produtivo.
O Brasil poderia dobrar facilmente sua produção agrícola, desde que houvesse uma política efetiva de incentivo e investimentos. Mas não é o que acontece. E nesta questão há um fator que raramente é citado: se, repentinamente, o Brasil dobrasse sua produção, os preços desabariam e não cobririam as despesas, pois continuamos trabalhando com altos custos de produção. A lei da oferta e da procura estaria contra nós por ineficiência do sistema produtivo.
O rei do Nepal salientou, em seu discurso, que neste momento não faltam alimentos, mas faltam recursos para a população comprá-los. A distribuição da renda no mundo continua catastrófica e este é um fator que pode tornar inútil aumentar a produção de alimentos. Os famintos não têm como comprar aquilo que necessitam. Distribuição de renda se faz pelo salário, que se obtém através do emprego. Este é um problema grave, mas a agricultura é tão generosa que até esse milagre pode fazer, pois o estímulo à produção no campo encheria de trabalhadores os campos do mundo inteiro.
O Brasil tem todas as condições de ser o celeiro do mundo. É preciso, somente, que planos concretos para aumentar a produção sejam feitos e executados com a força e a vontade política necessários ao salto que teríamos de dar. Na produção e na distribuição da renda. Quem não come, não produz. E se tem o que comer e com o que pagar, estará iniciado o ciclo que resolverá o problema da fome no mundo.

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