Embora o inesquecível romancista e dramaturgo Nelson Rodrigues tenha cunhado, entre tantas de suas definitivas frases, que ‘toda a unanimidade é burra’, salta aos olhos que quando todos concordam com uma questão talvez não estejam tão errados assim. Muito pelo contrário. No Brasil, tem havido concordância nacional a respeito daquele que é não apenas o mais sério problema do país, mas também a saída para superar o subdesenvolvimento: a educação. O governo tem insistido nisto, organizações públicas e privadas fazem o mesmo, religiosos e leigos batem na mesma tecla e a simples observação confirma: o que o Brasil precisa para converter em realidade o tão sonhado futuro de grande potência é investir na educação, é dar a todo o seu povo aquela base fundamental capaz de permitir aos homens superar os obstáculos e atingir as alturas.
Semana passada, ao participar de seminário internacional para discutir ensino a distância, o presidente Fernando Henrique Cardoso voltou a abordar a questão ao ressaltar que o governo optou por priorizar a escola fundamental. Reconheceu que existem problemas na universidade e que chegará o tempo de dedicar mais atenção a este setor vital. Mas insistiu que, por ser o Brasil um país cheio de lacunas, é preciso estabelecer prioridades. E justificou ainda a opção pelo ensino fundamental com o argumento de que ‘‘é preciso botar a energia do governo onde é exigido esforço maior’’. Esta visão, sem dúvida, é importante dentro de uma política que tenha em vista edificar a base, pois se o fundamental é falho, e infelizmente é, tudo o mais corre o risco. É como construir uma casa com alicerces mal estruturados.
Praticamente dentro do mesmo tema, e fazendo a importante ligação entre a educação e o desenvolvimento, o Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam), reunido em Tegucigalpa, Honduras, concluiu, no encerramento de um seminário de três dias sobre a situação no Continente, que a educação é a chave do futuro e o principal instrumento para atacar a pobreza na América Latina. O órgão eclesiástico se comprometeu a ‘‘promover no campo da educação a formação e a capacitação que humaniza e dá as ferramentas para progredir na vida, rechaçando aquela concepção equivocada que a minimiza para se obter mão-de-obra barata objetivando a produção de bens e serviços’’.
Igreja de um lado, governo do outro, um sem-número das chamadas Organizações Não Governamentais, todos são unânimes em apontar a prioridade absoluta que a educação exige e merece. Entretanto, o que continua a faltar é a ação direta, plena, para alcançar este objetivo. O discurso relativo à educação é antigo, a importância de se elevar a população, de acabar com o analfabetismo, de dar melhores condições para que os brasileiros enfrentem os desafios da vida em um mundo cada vez mais exigente, isto é ouvido há décadas. O problema é ver tudo isto convertido em ação efetiva.
Infelizmente, em especial no que tange ao governo, pouco se faz além do discurso. Basta observar a condição da escola pública (especialmente do ensino fundamental), a multidão de crianças ainda sem escola, as péssimas condições de trabalho oferecidas aos professores, a falta de respeito mesmo àqueles profissionais que, em um país sério, deveriam ser reconhecidos pela importância de sua vocação. Na verdade, o caminho é conhecido, os problemas também. Só falta que ações concretas sejam adotadas para transformar o anseio em realidade.

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