Editorial - O desafio da agricultura
O desafio da agricultura
O presidente da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), Antônio Ernesto de Salvo, comentando a reforma ministerial, assinalou que o mais importante não é a troca de ministros, mas uma alteração na forma como a área econômica trata os problemas do campo. De Salvo insistiu que o erro da atual política está no fato de os ministérios econômicos não tratarem o setor rural com a importância que ele merece, lembrando que é o setor que mais cresce, gera empregos e divisas no País. Quanto ao recém-escolhido ministro da Agricultura, Pratini de Moraes, o presidente da CNA enfatizou que o futuro imediato da produção brasileira e sua recuperação vão depender da capacidade do novo titular da Pasta de negociar com a área econômica. Para De Salvo, a missão fundamental do novo ministro será fazer com que a área econômica do governo priorize os problemas do campo, para que o setor possa voltar a ter renda, gerar empregos e mais divisas para o País. Lembrando que nos últimos dois governos foram nomeados 14 ministros para a Agricultura, o presidente da CNA destacou um dos maiores problemas do setor: o pouco tempo que cada ministro ocupa o cargo torna impossível implantar qualquer projeto que venha a apresentar benefícios para a população.
A lembrança da mudança de tantos ministros em tão pouco tempo, ainda mais quando se recorda a evidente preocupação do governo com a área econômica (ao pedir os cargos para realizar esta última reforma ministerial, o presidente deixou logo explícito que não iria substituir o titular da Fazenda, Pedro Malan) torna clara a visão governamental sobre o assunto. Não é, infelizmente, uma questão que surgiu agora, no governo Fernando Henrique Cardoso. É quase uma tendência histórica num país que tem fantástica vocação agrícola, mas que insiste em virar as costas para esta situação, encarando o campo como uma atividade menos nobre do que a das indústrias, do comércio ou mesmo dos bancos.
Aquilo que o presidente da CNA afirmou é o reflexo da opinião de praticamente todos os que lutam no campo sem conseguir que os sucessivos governos brasileiros encarem a agricultura - e a pecuária - com a devida atenção. É uma postura que foi seguida por diferentes governos que o Brasil teve nas últimas décadas, desde o avançado e democrático Juscelino Kubitschek ao duro e autoritário período do regime militar, persistindo após a redemocratização. JK lançou um projeto de modernização e industrialização sem dúvida importante. Mas o equívoco, então como agora, foi deixar de perceber que a produção constitui a base sobre a qual se pode construir o desenvolvimento, inclusive o industrial. Não se pode esquecer que grandes potências industriais contam com uma sólida retaguarda agrícola.
Os bons resultados das recentes safras podem indicar uma alteração na forma de conduzir a questão. Em certo sentido isto é real. Todavia, quando se percebe que o produtor agrícola continua a sofrer com falta de recursos, com sérios problemas de financiamento, com dívidas que não podem ser saldadas, então é possível entender por que ainda falta o fundamental: uma política de apoio efetivo ao produtor, pequeno, médio ou grande. Sem isto, a produção em uma safra pode não se repetir no ano seguinte. Sem continuidade - regras claras e constantes -, não se resolverão os problemas no campo. A agravante é que sem apoio efetivo à agricultura e à pecuária, dificilmente se recolocará o País nos trilhos do crescimento, como disse desejar o presidente Fernando Henrique. O desafio para realizar isto é, agora, do sr. Pratini de Moraes.





