O desafio agrícola
Quando, nos anos 70, eclodiu a terrível crise dos combustíveis, o mundo ficou em suspenso e a conclusão diante da dificuldade surgida para os países não-produtores de petróleo era a de que a posse de energia era fundamental para a sobrevivência das nações. Uma conclusão correta, sem dúvida. Entretanto, o desafio implícito naquela dificuldade produziu uma nova situação. Houve uma corrida a novas fontes de energia e a equação se transformou. Embora hoje a dependência do petróleo ainda constitua um problema, é certo que com as novas alternativas encontradas foi possível reverter o quadro. E neste final de século, o desafio maior não é o de se obter petróleo, mas o de alimentar uma população crescente e carente.
Em outubro deste ano, a população mundial chegará a 6 bilhões de pessoas, conforme o Comitê de Pesquisa Populacional, sediado em Washington. Segundo os pesquisadores, o número histórico será alcançado com o nascimento de um bebê provavelmente no Terceiro Mundo. A humanidade atingiu o primeiro bilhão em 1804, mas para alcançar os 2 bilhões foi necessário esperar apenas mais um século. O aumento da população sofreu uma brusca aceleração e, no século XX, o crescimento foi de 4,4 bilhões de pessoas. Segundo o Comitê, para a população mundial chegar aos 7 bilhões serão necessários mais 14 anos. E embora isso implique necessidade de mais energia, é certo entender que o maior problema será o de garantir alimentos para toda essa gente.
O problema é cada vez mais sério, conforme se observa pelos dados atuais da produção. As perspectivas alimentares registrarão uma ‘‘leve deterioração’’ em 1999/2000, em função da baixa prevista da produção mundial de cereais, informou o boletim Perspectivas da Alimentação, publicado em Roma pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Os últimos informes da entidade das Nações Unidas continuam indicando uma diminuição da produção de cereais em 1999 e uma leve deterioração das perspectivas do fornecimento de cereais na próxima safra comercial de 1999/2000. A FAO advertiu que, caso se cumpram os atuais prognósticos, será preciso recorrer às reservas mundiais de cereais acumuladas nas últimas três safras para satisfazer as necessidades do consumo. Segundo o último prognóstico da organização, a produção mundial de cereais em 1999 foi de 1,8 bilhão de toneladas, 1,3% a menos que no ano passado. A FAO destacou que os problemas para o abastecimento de alimentos persistem em 30 países, muitos deles na África (mais de 10 milhões de pessoas), mas também na Ásia e na América Latina, como Cuba. Segundo o informe, continua a grave emergência humanitária na Europa, em decorrência da dramática situação que ainda persiste em Kosovo, na Iugoslávia.
As previsões segundo as quais o novo milênio vai revelar um novo poder, em contraposição ao do petróleo deste fim de século, mostram-se cada vez mais concretas: é o poder agrícola, a condição de produzir alimentos para atender a uma demanda cada vez maior. Para essa realidade, avulta a posição do Brasil que, aparentemente, enxerga tal possibilidade. A nova política de investimentos para a agricultura, anunciada este fim de semana, é positiva. Com atenção redobrada, com apoio efetivo, com novas políticas fundiárias, o Brasil pode concretizar as perspectivas há muito anunciadas, assumindo, no começo do novo milênio, o papel de potência no mundo. Uma potência pacífica que alimentará seu povo e garantirá ao mundo condições para atender os 6 bilhões de seres humanos que estarão ocupando o planeta antes do fim do ano.

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