Editorial - O crime entre nós
Normalmente, para chamar a atenção diante de certos problemas que afetam a coletividade, usam-se imagens fortes e alertas pesados. Assim, por exemplo, nas campanhas que se fazem para tentar reduzir o índice de acidentes de carros usam imagens e até veículos envolvidos em grandes tragédias como um meio de alerta ao público. Todavia, até mesmo como uma reação da natureza humana, a maioria vê aquilo e descarta a idéia, enfatizando que tal coisa não vai lhe acontecer. O mesmo acontece em outras situações, como por exemplo diante deste imenso desafio que é representado pela ação nefasta dos traficantes que agem em todo o mundo - o crime sem fronteiras e sem limites. Diante das notícias sobre a ameaça do tráfico ou até em face das imagens de guerras de gangues por pontos de distribuição, uma reação comum é a de que isso não acontece aqui.
A apreensão de mais de 300 quilos de cocaína, anteontem, em Londrina, com a prisão de várias pessoas (algumas inclusive conhecidas e respeitadas na sociedade), mostra que a realidade é outra: Isso acontece aqui e em qualquer parte. Não existe mais aquela idéia que foi vendida aos brasileiros, à época do engodo do milagre brasileiro, segundo a qual somos uma ilha de prosperidade em meio a um mundo atingido por tormentas. Estamos, no Brasil, no Paraná, em Londrina, em Curitiba, em qualquer parte, envolvidos pelo crime que atinge pessoas acima de qualquer suspeita. Isso, porém, ainda não é o mais grave. A apreensão da droga, numa quantidade realmente elevada, a prisão de alguns dos envolvidos no tráfico, é apenas uma ínfima parcela diante da magnitude do desafio do crime organizado em relação à sociedade que se diz, e se quer, civilizada.
Levantamentos extra-oficiais (que, entretanto, merecem crédito) indicam que a droga apreendida pelas autoridades representa cerca de 10% do total distribuído em todo o mundo. Os 300 quilos de coca encontrados em Londrina, ainda que constituam uma quantidade elevada, são a ponta de um enorme e terrível iceberg. A prisão de pessoas da chamada alta sociedade revela outro tenebroso aspecto dessa situação. Fatos recentes, lembrados na cobertura feita pelo jornal sobre a apreensão da droga, mostram como não só empresários conceituados mas também políticos estão envolvidos no crime, participantes diretos das quadrilhas internacionais que ameaçam subverter a ordem social, com seus terríveis tentáculos.
A ação policial que resultou na apreensão da droga e na prisão de alguns envolvidos, sem dúvida merece crédito e destaque. É terrivelmente difícil o trabalho dos que lutam contra o tráfico, aqui como em toda parte. A polícia, de modo geral, se encontra em inferioridade diante do crime, em todos os sentidos. Para conseguir deter alguns traficantes, apreender drogas, ter algum sucesso nessa luta é necessária uma dose imensa de vontade e coragem. Todavia, como se tem percebido em recentes conclaves mundiais a respeito do assunto, as dificuldades para enfrentar a força do crime organizado são imensas. A sociedade precisa se conscientizar dessa realidade, até para participar melhor de uma luta que não é só da polícia ou da Justiça.
O desafio das drogas, como o do crime organizado em geral, representa um problema direto que envolve a todos. Em alguns países, os cartéis chegam a dominar dirigentes políticos nacionais, com suborno ou com ameaças. Pretender que esse problema seja dos colombianos ou dos bolivianos é só um modo de fugir à realidade. O tráfico está presente em toda parte, atinge a todos, direta ou indiretamente. E a sociedade só poderá vencê-lo se perceber isso e se unir às autoridades para combatê-lo.





