Pesquisa revelada esta semana, em nível nacional, revela que a aprovação do cidadão em relação aos serviços que lhe são prestados caiu de 6 para 5,85, numa escala de zero a 10, no período de abril a julho. Os serviços públicos básicos - telefonia, abastecimento de água e energia elétrica, escola pública, limpeza urbana, segurança e rede pública de saúde - obtiveram melhora de 5,78 para 5,91. Somente a saúde obteve nota abaixo de 5 (4,27). No caso dos serviços de transportes (aéreo, ônibus - urbanos, intermunicipais e interestaduais -, metrô, trens urbanos, táxis), houve relativa estabilidade (6,15 na pesquisa feita em abril e 6,14 em julho). A desaprovação ficou por conta dos serviços privados - escolas particulares, hospitais privados, planos de saúde e bancos. A média caiu de 6,19 para 5,7.
O brasileiro evoluiu muito nestes últimos anos em relação à própria consciência sobre deveres e, principalmente, direitos. E isto se deve, principalmente, ao sucesso do plano de estabilização da economia. Sabe-se, até por experiência, que uma inflação exacerbada, como a que o Brasil enfrentou durante muitos anos, prejudica não apenas a economia, mas todo o contexto social. Períodos inflacionários acabam com a esperança, influindo de modo nefasto inclusive sobre os padrões morais. Há um esgarçamento nos costumes e para perceber isto não é sequer necessário ler trabalhos científicos ou filosóficos: a população vivenciou este quadro, foi participante do famoso espírito do ‘levar vantagem em tudo’, sentiu a realidade na qual a única esperança de melhorar as condições de vida estava em ganhar na loteria e viveu toda a incerteza de uma época por si tenebrosa.
Para complicar ainda mais, houve também a traumática vivência de 21 anos de ditadura, quando o Poder dominava sobre as pessoas, quem era contra o statu quo corria o risco de sofrer ou morrer, o Estado era (ou tentava ser) o dono de tudo, da vida e da morte das pessoas. Com isto, os parcos conceitos de cidadania foram sendo sepultados de tal modo que nem mesmo a redemocratização foi suficiente para mudar este quadro. A auto-estima do povo se estiolou na ditadura e se deteriorou ainda mais diante do quadro catastrófico de uma economia sem controle.
O plano de estabilização, num primeiro momento, restaurou a confiança do povo. Mas isto também aconteceu quando do lançamento de outros programas econômicos, desde o Plano Cruzado, o que, basicamente, atesta que o povo queria recuperar seu amor próprio. Infelizmente, os fracassos sucessivos de planos econômicos mal elaborados ou manipulados serviram para piorar ainda mais a situação do povo. Com o Plano Real, as coisas começaram a mudar. E houve um crescimento expressivo no conceito de cidadania, o brasileiro passou a perceber melhor que não tinha só deveres, mas era também detentor de direitos. Se hoje ainda não existe a grande consciência sobre o que significam as palavras da Constituição quando dizem que ‘todo o poder emana do povo’, é possível dizer que pelo menos nos últimos quatro anos melhorou muito todo o processo de percepção dos cidadãos sobre seu papel real na democracia.
A pesquisa que revela que caiu a aprovação do povo em relação aos serviços que lhe são prestados é bem sintomática. Há agora uma consciência do direito que faz com que a avaliação seja mais clara e a exigência maior. Todavia, ainda falta muito. Um dado da referida pesquisa revela isto: o número dos que reclamam é de apenas 17%, isto porque ainda há uma crença forte entre a população de que não adianta reclamar. Quando o brasileiro começar a alterar este índice, para cima, sem dúvida a situação no País vai melhorar.

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