O cidadão e a inflação
As projeções relativas à eventual alta dos índices inflacionários, como resultado dos reajustes das tarifas públicas e dos produtos com preços controlados (caso dos combustíveis), são tecnicamente corretas. De fato, tarifas de energia, água, telefone e preços de combustíveis pesam demais na composição do custo de vida e, por extensão, atingem de modo direto a taxa inflacionária. Isso implicaria, naturalmente, em uma reversão das expectativas recentemente anunciadas sobre uma queda na inflação, com todos os efeitos que o novo cenário produz. Todavia, é importante considerar a realidade da vida atual para perceber que, uma vez mais, o que parece correto do ponto de vista técnico pode não se concretizar na prática, diante de outros fatores bastante ponderáveis.
Qualquer análise sobre a evolução dos preços, das tarifas e da inflação, a partir do lançamento do plano de estabilização, vai levar à percepção de que a reação da economia brasileira, hoje, é diferente da que se percebia no passado inflacionário. Quando se sabe, por exemplo, que os reajustes nas tarifas de energia elétrica, nos últimos quatro anos, superaram em muito a inflação do período, e que também foram elevados os aumentos nas outras tarifas, ocorrendo igualmente algumas altas pesadas nos preços dos combustíveis, sem que isso implicasse algum tipo de explosão inflacionária, ressalta uma visão diferente, resultado mesmo de uma realidade diversa da economia brasileira.
A desindexação, que foi o passo inicial do plano de estabilização, responde por boa parte desta reversão de resultados. No passado, na chamada época indexo-inflacionária, quando alguma coisa subia tudo acompanhava. O giro era terrível e praticamente incontrolável. O fim da indexação mudou esse quadro. Paralelamente, a recessão que ainda persiste e o quadro de desemprego, igualmente não resolvido, produzem condições diferentes no mercado. Para completar, e também em função de muitas das dificuldades surgidas nos últimos tempos, uma reação diferente do consumidor, cada vez mais consciente de seus direitos, nesse processo de evolução da cidadania, evita algumas das consequências que, no passado, eram inevitáveis diante das altas autorizadas ou promovidas pelo governo.
A conscientização do consumidor e a necessidade acabam por representar uma reação aos abusos, impedindo resultantes mais graves diante de altas como as que se enfrentam neste mês. Sem dúvida, a elevação da tarifa da energia elétrica funciona em cascata, atingindo muitos setores. O mesmo ocorre com a alta nos preços dos combustíveis. Mas duas reações acabam funcionando como freio, se não aos resultados naturais das altas, mas aos abusos que, no passado, as acompanhavam. A primeira reação é a provocada pela necessidade: com salário que não acompanha a alta dos preços ou, no caso do desemprego, até sem vencimento, o cidadão tem de mudar seus hábitos de consumo. Acaba por racionalizar, até por não ter outra alternativa. A segunda reação, resultado da evolução nos conceitos de cidadania, é a da rejeição ao abuso, o que já pode ser verificado nos primeiros tempos da desvalorização do real, quando houve o perigo de uma explosão nos preços: o consumidor reagiu, mudou hábitos, trocou produtos, forçou a baixa.
Os resultados da inflação nos primeiros meses do ano mostram que o consumidor ganhou a batalha. E, seguramente, vai ganhar de novo agora, embora, sem dúvida, tendo de enfrentar ainda mais dificuldades. Este quadro, aliás, mostra bem uma realidade: o cidadão brasileiro está conseguindo conter a inflação, apesar de tantos erros da equipe econômica. Sem dúvida, quando os governantes passarem a ajudar o povo na luta contra a inflação, o resultado será melhor e bem menos doloroso.

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