Beneficiado por uma esquisita (para dizer o mínimo) decisão judicial, o ex-presidente Fernando Collor de Mello mal teve tempo de iniciar os preparativos para seu triunfal retorno à vida pública brasileira, com a intenção de se recandidatar ao Palácio do Planalto ainda no pleito deste ano, quando a liminar que lhe devolvia os direitos políticos foi revogada. Antes de ser informado desta nova decisão da Justiça - anunciada ontem no início da noite - o ex-presidente, usando o tom de político em campanha, assinalava, em Miami, onde reside atualmente, que o povo iria julgá-lo, dando a entender que o julgamento político a que foi submetido pelo Congresso não vale muita coisa.
A liminar que lhe devolveu os direitos políticos, cassada prontamente, fez com que Collor, compreensivelmente, voltasse a ocupar as manchetes dos jornais. E esse ressurgimento do ex-presidente na mídia nacional, associado à anunciada possibilidade de sua nova candidatura e ao discurso sobre o julgamento popular provocaram natural choque sobre uma população que está esperando, há muito, decisões mais precisas sobre aquele político.
Na verdade, o povo sequer pode julgar o sr. Fernando Collor. Faltam elementos. Eleito presidente, na crista de uma campanha eleitoral muito bem feita, o sr. Collor de Mello acabou lançado ao descrédito em função de uma campanha de denúncias que partiu de seu próprio irmão - o falecido Pedro Collor -, que desencadeou processo como raramente se viu em um país. E Collor foi primeiro afastado pela Câmara e depois teve seu impedimento praticamente aprovado pelo Senado, em meio a clima de total repúdio popular ao seu nome. Só na campanha pelas diretas se observou no País mobilização popular igual à que ocorreu em face das denúncias contra Collor. E quando ele renunciou, para tentar evitar precisamente as medidas que impediriam sua volta à vida pública antes do ano 2000, houve clima de alívio em quase todo o Brasil.
Todavia faltou, e continua a faltar, a consequência de tudo isto. Collor foi afastado devido a denúncias sobre corrupção, que inclusive levaram para a cadeia seu mais próximo auxiliar, PC Farias. PC fugiu, foi preso, foi solto, acabou assassinado em circunstâncias misteriosas, mas quanto a Fernando Collor, até agora, nada aconteceu. Ele vive fora do País porque quer. Não há mandado de prisão contra ele, nem há condenações, nada. Certo que ele perdeu o maior cargo público que um homem pode atingir, o que constitui por si uma punição. Todavia, isto ocorreu em função de denúncias de corrupção, que naturalmente deveriam implicar em penas legais, que não aconteceram.
Se Fernando Collor vier um dia a ser candidato à Presidência, o eleitorado não terá elementos efetivos para julgá-lo, em face da falta de solução para as pendências que foram apontadas e que até agora não chegaram a conclusão alguma. Tudo isto produz sobre a população o pior efeito, restaurando as dúvidas sobre a Justiça de modo geral. Antes e depois do que ocorreu com Collor, houve outras denúncias contra políticos. Muitos, como o ex-presidente, perderam os mandatos, inclusive acusados por corrupção. Porém, nada mais aconteceu com eles. Não foram presos, não tiverem bens confiscados. E, como Collor, podem voltar como se nada houvesse acontecido. Evidentemente, alguma coisa parece errada nesta situação.

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