O ‘bug’ da saúde
Todos os temores em torno do – agora meio desmoralizado – ‘‘bug do milênio’’ davam a impressão de que o mundo que entraria no ano 2000 era, efetivamente, muito evoluído. De fato, se o grande motivo de preocupação mundial estava relacionado à informática, isto deveria significar que a partir de agora as questões relevantes eram diferentes daquelas que despertaram atenção e cuidado das autoridades e da população no passado. No entanto, notícia procedente de Brasília mostra que o País não entrou como esperava no ano 2000. Pelo menos em termos de saúde. Hospitais de Brasília estão tratando de pacientes com suspeita de febre amarela, sendo que um deles morreu no começo desta semana. Ao mesmo tempo, em Goiás, houve também alerta sobre casos da mesma doença, o que provocou corrida aos postos de saúde em busca de vacinação.
O País que chegou a figurar em 8º lugar do mundo em termos econômicos e que em alguns aspectos está bastante avançado, continua a conviver com a miséria e a doença. Foram aplicados milhões no sentido de evitar os maiores perigos decorrentes do ‘‘bug do milênio’’. A necessidade não se discute. Todavia, ao longo dos tempos, aplicou-se pouco e mal no sentido de tirar a população do fosso da desassistência, o que acaba produzindo situações como estas: o Brasil do ano 2000 ainda está envolvido com doenças que causaram mortes no começo do século 20. A impressão é a de que talvez o País esteja precisando tanto de novos ‘‘Osvaldo Cruz’’ (para quem não sabe, o médico e sanitarista que livrou o Rio de Janeiro da febre amarela) quanto de técnicos em informática.
É necessário repetir o que tem sido afirmado ao longo dos tempos: resolver problemas depende, fundamentalmente, da vontade. O próprio caso do chamado ‘bug’ do milênio confirma esta afirmativa. Uma vez que se percebeu a eventual magnitude do problema, houve a decidida vontade para se resolver a questão em todo o mundo. O resultado foi que o maior pesadelo – que envolvia até a possibilidade de lançamentos inesperados de mísseis atômicos – não se concretizou. Há outros exemplos, mais próximos e até menos complicados: o Brasil resolveu, logo depois do surgimento da vacina Sabin contra a poliomielite, erradicar a doença. E conseguiu.
O mesmo porém não acontece em relação a outros problemas da área da saúde. O panorama que se tem visto nas últimas décadas, não muda; hospitais cheios, gente morrendo nas filas de atendimento, crianças que não têm qualquer possibilidade de vida ativa porque foram condenadas já no ventre materno devido à desnutrição e falta de cuidados. Reclamava-se de falta de recursos específicos para a saúde. Então surgiu um ministro da Saúde que lutou com todas as forças para conseguir meios, inventando o famigerado CPMF, o ‘‘imposto do cheque’’, que virou IPMF e é cobrado em todas as movimentações financeiras. Mas isto também não resolveu ou sequer minimizou a tragédia, por uma simples razão: o tema saúde é muito interessante para discursos demagógicos e para conquistar votos. Mas não há a real vontade de se mudar este quadro, de garantir ao brasileiro condições dignas. Com isto, a consequência não podia ser outra: o Brasil do ano 2000 enfrenta o mesmo drama vivenciado no ano 1900.