Ainda que os brasileiros, na maioria, entendam pouco de economia, já estão suficientemente experientes em relação às coisas para perceber a tolice (ou mentira) do argumento do presidente Fernando Henrique Cardoso quando diz que a alta do dólar só afeta a quem compra importados. Se o dólar sobe, não são apenas os carros importados, nem mesmo só os artigos das lojas do 1,99 (que, aparentemente, estão fadadas a mudar de nome), importados, que sofrem. Basta pensar, apenas, nos combustíveis, importados, em boa parte. Se o petróleo sobe, a gasolina, o diesel, o GLP e todos os outros derivados vão junto. E todos acabam sofrendo os efeitos disto, direta ou indiretamente.
Uma das alternativas, naturalmente, seria baixar os impostos de importação, para atenuar o impacto da elevação do dólar. Outra, reduzir os juros, a fim de permitir que a eventual elevação nos custos de produção fosse compensada. Mas o governo se mostra arredio às duas soluções. No primeiro caso, porque existe uma fobia oficial em relação a qualquer iniciativa para a redução de impostos. Esta semana, ainda, diante do apelo dos sindicalistas que pediam redução no IPI para os veículos, para que a indústria tivesse um certo alívio, o ministro do Trabalho disse que isto não seria feito a não ser que o governo tivesse a certeza de que a arrecadação não cairia. Ora, a arrecadação vai cair, pela simples razão de que as vendas estão em baixa. Reduzir os impostos pode ajudar, na medida em que baixa os preços e permite mais vendas. Entretanto, as autoridades brasileiras não parecem dispostas a usar o senso comum. E continuam a pensar em termos de elevar alíquotas ou criar novos tributos como solução para seus problemas, em especial o do déficit público.
Quanto à política de juros, também as esperanças são reduzidas. As informações iniciais são as de que o governo pretende elevar os juros para evitar a volta da inflação. O que vai conseguir, sem dúvida, será o agravamento da recessão. E o pior que pode acontecer, neste momento, seria justamente a retomada da inflação com mais recessão, o que provoca aquele terrível fenômeno chamado estagflação. Ao que parece, porém, esta hipótese não vem sendo sequer analisada pelos responsáveis pela condução da política econômica, embora devesse ser uma das possibilidades em estudo. Até para evitar maiores riscos.
Na realidade, só existe uma frente que pode funcionar nesta luta destinada a evitar que tenhamos de volta uma espiral inflacionária altamente perigosa: é a do consumidor. Neste momento, ele é a única força efetiva. Com uma agravante: diante da própria situção, com os salários praticamente seguros, com o desemprego se agravando, a população está com parcos meios para consumir. Quer dizer, vai fazer frente à ameaça da elevação de preços por falta de meios. Vai consumir menos. Na verdade, ainda que esta seja a solução menos satisfatória, até porque implica em alimentar a recessão, existem poucas outras opções, neste momento. Naturalmente, haverá ainda o canto da sereia dos apelos publicitários no sentido da compra a prazo. Mas os especialistas têm advertido a respeito: este não é o momento para endividamentos, não apenas porque o dinheiro anda curto mas também porque o emprego está ameaçado.
O brasileiro está, hoje, mais só do que antes nesta sua batalha, apesar do que diz o presidente, ou até por causa disto. Afinal, quando o chefe da nação usa argumentos falaciosos para mascarar uma realidade que está aí e pode ser sentida pela população, as esperanças de que alguma solução positiva venha dele se reduzem. Ao povo, que não quer a inflação de volta, que já sofreu demais com ela nos últimos anos, resta a luta, nesta que é talvez a última trincheira na defesa da estabilidade.

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