O líder da oposição peruana, Alejandro Toledo, expressou sua profunda decepção em virtude do apoio dado pelos presidentes do Brasil, Chile e Argentina ao reeleito presidente Alberto Fujimori. Depois de enfatizar que Fujimori se manteve no poder graças a eleições fraudulentas, Toledo, que está em visita à Espanha, confessou-se profundamente decepcionado pelo apoio que os três presidentes deram a Fujimori, após uma reunião realizada em Berlim, antes de participar da cúpula ‘‘Governança Progressiva Século 21’’.
A reação do político peruano pode ser entendida. Entretanto, é inegável que a decisão dos presidentes de Brasil, Chile e Argentina está bem embasada em uma doutrina que não pode ser esquecida e que já serviu para posturas semelhantes, muitas vezes até perigosas para a época, adotadas no passado. Como exemplo, vale lembrar a posição do então presidente brasileiro, Jânio Quadros, em 1961, diante da questão cubana, levantada pelos Estados Unidos em reunião da OEA. Os norte-americanos queriam que a Organização se colocasse frontalmente contra o novo regime cubano, que à época havia anunciado sua postura marxista. O governo liderado por Jânio Quadros entendeu que, dentro da ótica da não intervenção nos assuntos internos de outros países, o Brasil não tinha como apoiar uma postura de hostilidade ao regime de Fidel Castro.
O episódio provocou profundas e perigosas reações, culminando com uma forte crise quando o governo brasileiro outorgou uma condecoração ao ministro cubano Ernesto ‘Che’ Guevara, que visitava o País. Este foi, sem dúvida, um dos focos da resistência contra Jânio, que renunciou à presidência pouco depois. Seu sucessor, João Goulart, manteve a mesma postura, em relação a Cuba, o que, certamente, não o ajudou em muito quando enfrentou a reação militar que o depôs, em 64, com um forte apelo anti-comunista. De qualquer modo, ficou muito evidente à época uma posição bastante sólida (e, para a ocasião, corajosa) do Brasil no sentido de considerar inadequada qualquer intervenção externa em assuntos internos de outro país.
O que aconteceu no Peru tem muitas similaridades. Fujimori já deu um verdadeiro golpe quando, eleito presidente, fechou o Parlamento e a Justiça e formou uma nova estrutura que, entre outras coisas, permitiu-lhe concorrer a um segundo mandato. O trabalho visando ser outra vez eleito poderia ter sido frustrado, mas o líder da oposição, exatamente Alejandro Toledo, desistiu de disputar o segundo turno, alegando a pressão interna que tornava quase impossível o trabalho de sua campanha. Com a desistência, Fujimori foi confirmado. Que toda esta situação pode ser discutida, em relação aos padrões democráticos, é certo. Entretanto, também é indiscutível que a posição de Brasil, Argentina e Chile, contestada por Toledo e, também, ainda que não de modo tão ostensivo, pelos norte-americanos, é defensável exatamente dentro da doutrina latino-americana de auto-determinação dos povos.
Pode o continente marginalizar o Peru, como condenação por uma suposta ação totalitária que contraria o espírito democrático que tem sido posto como fundamental para as relações internacionais. A ONU tem adotado sanções contra vários países, a principal das quais a que atingiu a África do Sul e que, certamente, ajudou a mudar a situação interna daquele país. A OEA também tem instrumentos semelhantes e pode ou não utilizá-los caso considere as atitudes de Fujimori contrárias ao bom entendimento entre as nações do continente. Fora disto, haverá uma real ingerência que nenhum país aceitaria.

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