Editorial - O Brasil e a poupança
A iniciativa do governo japonês de reduzir impostos para sair da crise que ameaça o país - e o mundo - é a saída ideal para enfrentar a recessão. Infelizmente, não funcionaria no Brasil. O aviso é do economista Dionísio Dias Carneiro, da PUC do Rio de Janeiro. No Japão, a sociedade poupa mais do que consome e, portanto, tem recursos próprios para investir. No Brasil, gasta-se mais do que se produz e não se forma poupança. Somos obrigados a atrair capitais de fora, ou por empréstimo - como nas décadas de 60 e 70 - ou oferecendo juros maiores do que os outros países. Uma terceira via é a venda de estatais - que já estamos fazendo - e a atração de investimentos industriais, que também estão acontecendo. Mas tudo dinheiro de fora. Não temos poupança para bancar nosso próprio crescimento.
Por isso, uma redução de impostos aqui ajudaria muito pouco no combate à recessão, seja pelo lado do consumo - pois falta poupança popular -, seja pelo lado da produção, pois falta estímulo para investir.
O que fazer?
Sem dúvida, reduzir impostos!
Seria tão grande o impacto de uma medida dessas na economia brasileira que milhares de pequenos e médios empreendedores verde-amarelos, até então desconfiados, assim como grandes investidores ressabiados, sairiam da sombra para investir na produção. Com que dinheiro? Com o dinheiro das carteiras de crédito dos bancos de fomento ou mesmo privados, a juro especial e de longo prazo.
Não é só porque não temos poupança interna que não investimos na produção. É porque também não temos estímulo algum para isso. Ao contrário, só temos desestímulo, a começar pelos impostos, pelas leis trabalhistas ultrapassadas, pela sede insaciável do poder público por taxas e contribuições e, por fim, pelos recentes e abusivos juros de mercado, há quase quatro anos em alta desembestada.
A riqueza gerada pela redução de impostos seria muito maior que o endividamento de longo prazo necessário para dar início ao processo. Essa riqueza viria na forma de lucros e de mais e melhores salários para os trabalhadores e consumidores. É como Henry Ford sonhou: fazer carros que seus empregados pudessem comprar e assim construir um sistema de prosperidade crescente. Outro americano, Abraham Lincoln, diria que tudo seria mais fácil com poupança interna, e é verdade. Mas o capital, se não existe a priori, pode ser contratado se o custo e o prazo forem razoáveis.
É simples, mas quando um país está fora dos eixos há muito tempo, como o nosso, ninguém quer correr riscos. Para que ganhar dinheiro com a produção, se o Governo paga fortunas para o dinheiro ficar parado? Isto é, para financiar indefinidamente o seu déficit, que não pára de crescer...
O povo - e o empreendedor também - reflete em seus atos o modo de agir dos que o governam. E os governos, no Brasil, sempre foram perdulários. Gastar mais do que se arrecada não é invenção de hoje. Faz parte da história, até mesmo da filosofia de vários e sucessivos governos. E quando os governos são gastadores ao ponto em que os nossos chegaram, os juros têm que ser altos para tirar cada vez mais dinheiro do setor privado e financiar o setor público. Obviamente, a produção fica sem dinheiro e se o Governo não se importa com isso, quem vai arriscar-se a produzir? Todos vão preferir emprestar o dinheiro para o Governo e gastar perdulariamente os juros.
Não existe outro meio de sair da recessão e do desemprego a não ser investindo na produção. O sinal disto, claro e insofismável, através de condições e estímulos oficiais, é o que está faltando para o Brasil de hoje ser um Japão amanhã.





