EDITORIAL - O Brasil agrícola
O Brasil é um país rico com grande contingente de povo pobre; com abundância de produção de alimentos e quase um terço da população passando fome, ou, para ser específico, vivendo em regime de subnutrição pela escassa alimentação que lhe chega à mesa. Não é, portanto, por falta de alimentos que 50 milhões de brasileiros comem mal e vivem na miséria, conforme os números do último levantamento da Fundação Getúlio Vargas.
O que ocorre é a má distribuição, motivada pela incapacidade de compra desse contingente de cidadãos, vítimas do desemprego, de doenças e outras tantas misérias sociais. Uma delas, a incapacitação profissional, que tem origem na própria pobreza e na impossibilidade econômica dessas pessoas para acesso à escola e ao aprendizado de uma profissão. Misérias sobrepondo-se a misérias, uma originada da outra, sem se saber onde cada uma delas começa.
Essa situação de milhões de carentes deriva facilmente para a violência. Porque a fome é péssima conselheira e, no dizer de um analista social, um homem faminto, com mulher e filhos nas mesmas condições, enfrenta até baioneta calada. Dias atrás, assistimos a milhares de pessoas, no Rio de Janeiro, apropriando-se de alimentos de um pavilhão da Ceasa que havia sofrido um incêndio. Tudo isto acontecendo num país que produz excedentes de comida e cujas fronteiras de produção e produtividade agrícolas ainda não foram totalmente exploradas.
A simples distribuição de cestas básicas é sempre uma solução paliativa, mas que não deve ser abandonada agora, porque a situação de 9,5 milhões de famílias carentes, que totalizam aqueles 50 milhões de brasileiros vivendo de baixíssima renda, não pode esperar.
O candidato vitalício do PT à Presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva, que percorreu o Paraná por estes dias, levanta em sua campanha a bandeira do incentivo à agricultura familiar e propõe que, ao invés de gastos com a doação de cestas básicas, o governo deveria voltar-se para políticas de financiamento agrícola, de assistência técnica, de garantia de preços mínimos para os produtos da lavoura e do fornecimento de sementes para os pequenos agricultores.
Está certo quanto aos princípios, porque assim tem de ser. Mas deve saber o candidato - líder das pesquisas de preferência de voto - que enquanto grandes soluções não chegam será necessário manter o atendimento a esses carentes e desassistidos, até por dever de humanismo e solidariedade. E, quanto à política defendida pelo Instituto Cidadania - coordenado por Lula e que defende um programa nacional de combate à fome - o candidato deve ter consciência de que será necessário solucionar também o problema dos colonos sem terra, e evitar as invasões.
Já mais amadurecido politicamente, Lula desloca-se do eixo dos grandes centros urbanos e põe os pés na roça, para conhecer os brasileiros que não são metalúrgicos e que vivem (e só sabem viver) da terra. Ao menos a sua linguagem está correta quando afirma que serão necessárias, para o agricultor, políticas de assistência, de preços e de financiamento - nos momentos certos - sem a morosidade com que os recursos têm chegado ao campo, muitas vezes fora de época e presos ainda ao emaranhado da burocracia.
Mas não deve o candidato do Partido dos Trabalhadores pensar que, se chegar à Presidência, terá apenas o Brasil agrícola das pequenas famílias, porque se assim for, só contemplará a cultura de subsistência. O Brasil é também um produtor agrícola de escala e tem na agricultura extensiva um de seus mais vigorosos sustentáculos econômicos. Lula presidente da República não deverá enxergar o Brasil e o mundo apenas pela janela estreita da presidência de honra do PT.
Deve saber que as questões da agricultura não podem ser discutidas apenas pelos teóricos das entidades sociais e sindicais - como está ocorrendo agora na esfera do seu Instituto de Cidadania - mas também pela comunidade dos pesquisadores e demais especialistas em questões do campo, sem esquecer dos médios e grandes empresários do setor.





