Editorial - Novo conceito de saúde
Há alguns anos, um candidato a prefeito de Londrina - ligado ao esporte - tinha um slogan de campanha no mínimo curioso: mais campos de futebol e menos hospitais. Pretendia dizer que, com o aumento da prática esportiva, as doenças diminuiriam. Não foi muito bem compreendido, embora sua derrota não decorresse apenas disto. Entretanto, conforme se começa a perceber agora, cuidar da saúde em uma comunidade, e mesmo no País ou no mundo, não é apenas abrir hospitais, postos de saúde, dar remédio, mas sim, algo muito mais amplo. A questão deve ser tratada de modo pleno, um processo que vá ao âmago do problema, com a finalidade de oferecer ao ser humano maior satisfação em sua caminhada. O que significa, enfim, proporcionar às pessoas um cotidiano mais saudável.
Esta idéia, de certa forma simples, começou a ganhar terreno apenas bem recentemente. Em 1996, em um encontro mundial de medicina, definiu-se que saúde é um estado amplo de felicidade e bem-estar físico e mental. E esta verdadeira revolução nos conceitos abre comportas sequer imaginadas, inclusive porque deixa claro que a verdadeira solução para problemas de saúde passa por um trabalho que vai além do hospital ou do posto de saúde e que, na verdade, começa e se desenvolver em função de toda a vida do cidadão.
Assim, esta solução obviamente não se restringe apenas a ações do Ministério e das Secretarias estaduais ou municipais de Saúde. No caso nacional, é necessário, também, enfatizar a nova visão para realizar, a partir daí, um trabalho mais completo de atendimento às necessidades dos brasileiros.
Um dos obstáculos é que esta revolução nos conceitos encontrou situações muito definidas reclamando uma alteração imensa nos organismos públicos e também privados. É um trabalho complexo que vai exigir transformações de mentalidade, ao lado de novas políticas de apoio ao desenvolvimento humano. Mas, é lógico, sem que se esqueça que existe um quadro real reclamando atendimento imediato. Não se pode largar tudo o que foi e está sendo feito, porque há uma situação efetiva de doenças a atingir milhões de brasileiros.
No Paraná, o fio condutor da idéia responde pelo título de Município Saudável. É interessante perceber que a idéia, ainda que mais ampla do que possa parecer pelo título, acaba por privilegiar a base. Trata-se inegavelmente de um conceito segundo o qual o melhor local para que se desenvolvam políticas adequadas visando o bem-estar do cidadão é exatamente onde ele mora. Seria como que uma ampliação do conceito do municipalismo, que reclama a adoção de uma ótica centrada no próprio ponto de partida da vida de cada um. O municipalismo, sabe-se, insiste na tese correta segundo a qual as pessoas não vivem no País, nem no Estado, mas na sua localidade, no caso brasileiro, no município. E é aí que ele deve ter condições para realizar seus projetos de vida.
Também há de ser a partir deste ponto que o cidadão deverá receber o atendimento de que trata este novo conceito da saúde, com o atendimento de suas necessidades básicas. Isto é, melhorar a qualidade de vida, o que inclui trabalho, salário, trânsito, lazer, moradia, educação e alimentação. Uma política ampla que leva em conta o indivíduo e que trata da saúde e não só da doença, quase que uma idéia prevencionista superior à da vacinação. Pois a vacina previne certas doenças e esta nova conceituação trata de garantir saúde física, mental, total à coletividade. Trata-se, sem dúvida, de um projeto vasto e complexo. Mas, conforme a própria idéia genérica sobre a vida, a percepção já é o primeiro passo para enfrentar o problema.





