Editorial - Novo caminho para o MST
Novo caminho para o MST
Reportagens divulgadas na semana passada pela televisão anunciavam, com um certo tom alarmista, o que consideravam uma nova tendência dentro do MST, o movimento dos trabalhadores sem-terra que tem provocado muita celeuma com suas invasões e uma postura de franco desrespeito à lei. Segundo aquelas matérias, o MST estava derivando de sua postura inicial, em que reivindicava terra para assentar os milhares de famílias afastadas dela, passando a seguir uma diretriz mais ambiciosa: buscava o poder. Em entrevista publicada no sábado por um jornal paulista, o principal líder do movimento, João Pedro Stedile, confirmou parte da questão ao enfatizar que, de fato, o MST quer chegar ao poder. Mas, ponderou, pelo caminho certo e legal, através das urnas.
Aí está uma nova definição e sem dúvida este pode ser o caminho adequado para que o Movimento dos sem-terra atinja realmente os objetivos que busca. Na verdade, seria como uma sequência do que aconteceu nos duros anos da ditadura, quando algumas corajosas lideranças sindicais se levantaram contra o poder arbitrário e o enfrentaram. Naqueles tempos, o trabalhador foi uma das grandes vítimas dos projetos desenvolvimentistas do governo. Os salários foram eleitos como o grande vilão responsável pela inflação e o esquema totalitário criou esquemas de arrocho que levavam o trabalhador a uma situação de miséria. Foi a época em que um porta-voz do governo, o sr. Carlos Átila, cunhou a grande frase segundo a qual mais importante que o salário é o emprego, dando a entender que a política de arrocho era mantida para evitar o desemprego.
Ademais, com o totalitarismo vigente, o trabalhador não tinha como se manifestar, até que surgiram alguns líderes, entre os quais Luiz Inácio da Silva, o Lula, que afrontaram o poder e mobilizaram os trabalhadores. Houve algumas vitórias sindicais, mas o totalitarismo prevalecia até que surgiu a percepção correta: o caminho para superar a própria ditadura, com as armas que usava, era o político. Primeiro, a batalha se travou no bipartidarismo imposto pelo regime militar. Depois, quando a ditadura percebeu que perdia o controle e abria a possibilidade para o novo pluripartidarismo, surgiu, entre outros, o PT, Partido dos Trabalhadores. Foi o meio encontrado para levar aquelas lideranças ao campo das decisões, a política. Não se pode esquecer que foi através do voto que o povo brasileiro derrubou a ditadura, em 1985. E não se pode esquecer o papel do PT à época e agora, funcionando como um canal através do qual os trabalhadores podem influir na vida nacional.
Se a tese do MST, a luta pela reforma agrária e pela distribuição de terras, não constitui uma bandeira capaz de criar uma plataforma política produzindo um partido, ainda assim representa uma posição com grande apoio. E, em um partido ou nas agremiações já existentes, as lideranças políticas do MST podem, perfeitamente, passar a participar de modo direto da vida nacional, defendendo e avançando nas reformas que constituem a base de sua existência. Ao invés da ação ilegal, das invasões, a luta legal dentro do sistema, com representantes eleitos apresentando projetos para reformas, discutindo com os demais segmentos representativos da vida nacional, o que implica em aceitar opções, e criando assim uma realidade política capaz de abrir caminhos para a solução de problemas. Não é uma caminhada fácil, todavia a alternativa já se revelou inadequada. Com as invasões e uma atuação violenta, o MST está inclusive provocando repulsa e medo. Buscando o caminho da legitimidade política, terá condições de encontrar soluções dentro da lei, o que é o caminho natural para o entendimento entre todos.





