Editorial - Nova realidade
O segundo turno das eleições para governadores de Estado não foi muito bom para o presidente Fernando Henrique Cardoso. Mesmo nos Estados em que políticos de seu partido ganharam, principalmente São Paulo, sua situação não pode ser considerada confortável. Com efeito, a eleição de Mário Covas, que pertence ao mesmo PSDB de Fernando Henrique Cardoso, talvez custe mais caro ao presidente do que se o eleito fosse Paulo Maluf, que é do PPB, partido que faz parte do grupo de apoio ao Executivo federal. Covas já teve sérios atritos com o governo federal, não queria se candidatar à reeleição, apenas aceitou a disputa após um apelo direto do próprio presidente. Com uma atitude ética, Covas se licenciou do governo para disputar o novo pleito e quase nem chegou ao segundo turno. E é inquestionável que o apoio dado a ele pelo PT, no pleito de domingo, foi muito importante. Por outro lado Maluf, que poderia vir a ser um problema no futuro, representaria um apoio mais firme ao presidente agora com seu PPB. Maluf já andou falando em se tornar oposição ao governo, e talvez possa levar alguns deputados com ele, o que criaria dificuldades ao Executivo federal no seu segundo mandato.
Se em São Paulo nem a vitória de um político de seu partido é garantidora, no Rio, em Minas e no Rio Grande do Sul, outros Estados de enorme peso eleitoral, a situação é pior. No Rio, a vitória de Anthony Garotinho representa um verdadeiro reforço para o PDT de Brizola, alicerçado pela aliança ali formulada, que inclui também o PT. Em Minas, a vitória de Itamar Franco é outro entrave sério para FHC. Itamar foi quem lançou Fernando Henrique à Presidência. E pretendia se candidatar à sucessão do chefe de Executivo, no que foi obstado pela aprovação da reeleição. Não será um parceiro do presidente. Ao contrário, certamente usará o cacife de sua boa vitória e o peso de Minas para os embates futuros, visando até uma candidatura presidencial em 2002.
No Rio Grande, perde o governador do PMDB, Antônio Britto, aliado de FHC, e ganha o candidato do PT, Olívio Dutra, com o apoio do PDT, repetindo-se, ainda que inversamente, a aliança vitoriosa no Rio. O próprio Olívio Dutra destacou, no primeiro pronunciamento após a vitória, o papel de Lula em sua campanha, comentando também a presença ali de Brizola, o que sequer seria necessário. Os resultados do Rio e Rio Grande do Sul devolvem a Lula e Brizola uma força que parecia perdida após a derrota direta no dia 4 de outubro.
O senador Antônio Carlos Magalhães tentou minimizar os efeitos dos resultados eleitorais do segundo turno, assinalando que, em seu entender, a situação política brasileira está praticamente inalterada. É difícil, porém, aceitar com tranquilidade esta visão. Fernando Henrique Cardoso, sem dúvida, foi reeleito com expressiva votação no primeiro turno. Os partidos que apoiavam o presidente conseguiram formar bancada praticamente idêntica à existente agora na Câmara Federal. O partido de FHC teve, inclusive, um aumento em sua representação. Todavia, não se pode deixar de ler o recado das urnas do domingo, ou seja: o de que alguns dos que se opõem ao presidente também ganharam.
Além da possibilidade de uma debandada entre os partidos que vinham apoiando o presidente, há também a considerar o peso real que os governadores dos principais Estados do país detêm. No mínimo, é certo que Fernando Henrique Cardoso terá que promover um tipo de aproximação junto aos novos governadores e mesmo com a oposição. Na verdade, talvez este seja o fator mais importante e o resultado melhor deste segundo turno: sentindo que não está tão forte, o presidente terá que buscar o diálogo para governar com todos pelo bem do Brasil.





