Editorial - Nem rei nem rainha
No período em que permaneceu à frente do Ministério da Saúde, o cardiologista Adib Jatene lutou contra uma doença crônica no coração do sistema de saúde brasileiro: a falta de dinheiro. Deixou o campo de batalha depois que perdeu, para os ministros e técnicos da área econômica, um luta interna pelos recursos que estavam sendo arrecadados via imposto do cheque. A CPMF e depois o IPMF eram criação dele e sua implantação tinha sido uma vitória pessoal do ministro. Só que uma boa parte do dinheiro estava sendo desviada para tapar outros buracos na execução orçamentária da União.
O resultado é que a Saúde, que precisava de todo o IPMF para se aguentar nas pernas, continuou cambaleando, pagando pessimamente os médicos e hospitais e oferecendo também péssimos serviços à população.
Seu substituto, Carlos Albuquerque, não conseguiu mudar uma vírgula dessa situação. Uma cesariana continua sendo paga com R$ 60 pelo Governo, e ainda assim para dividir entre o cirurgião, o auxiliar e o anestesista. E enquanto os hospitais e médicos são pagos a preço vil, os brasileiros continuam a sofrer com as filas, a falta de atendimento, a falta de leitos, a falta de médicos, a falta de remédios, a falta de tudo.
E como corolário natural desta miséria, o cargo de ministro da Saúde está novamente vago, embora o motivo prático real disto não seja bem este: o ministro pediu demissão porque se considera injustiçado e vítima de manobras políticas.
Entretanto, e isto salta aos olhos, ainda que a questão seja política, o que existe mesmo é uma situação intolerável que reclama, há muito, soluções. A calamidade da saúde pública no Brasil não é de hoje e por isso mesmo, longe de isto ser atenuante, precisamos de soluções verdadeiras, completas e imediatas. Nada justifica, nem mesmo a falta de recursos, o que as autoridades fazem com o sistema de saúde no Brasil.
Não adianta dizer aos milhares que ficam nas filas para conseguir uma consulta, aos que morrem sem atendimento, aos que imploram uma cirurgia, aos que lotam hospitais, que o problema é antigo. O que se quer, o que se reclama, o que o pobre e subnutrido povo brasileiro exige e a que tem direito é um mínimo de assistência capaz de fazê-lo sobreviver e ainda ter uma vida ativa e produtiva.
A troca de ministros da Saúde não pode ser, desta vez, mera jogada de xadrez político por causa das eleições de outubro. Tem que ser outra coisa. A saúde no Brasil está em situação de enfarte com parada respiratória e falência múltipla de órgãos. Já é situação de óbito. O caos está aí para os repórteres encherem páginas e páginas dos jornais.
O descalabro na saúde exige um trabalho verdadeiramente hercúleo, homérico, talvez até lunático, como pareceu o do dr. Jatene. Trata-se de um desafio que vai além das forças humanas habituais e, obviamente, com absoluta certeza, além das questiúnculas políticas e eleitorais. É um drama que tem de ser resolvido para garantir à população o mínima de assistência que a Constituição prevê. A tragédia que os brasileiros vivem, parece que desde sempre, no setor de Saúde não pode continuar.
O novo ministro, que pode ser o senador José Serra, já convidado para o cargo, não pode ser um peãozinho nem mesmo uma rainha. O tabuleiro não é político, mas sim o de um jogo de vida ou morte de milhões de pessoas, milhões de crianças, homens e mulheres despossuídos de tudo, e muitos nem tanto, mas que são a força de trabalho do País, a máquina que faz andar a sociedade e a economia. E mais do que isso, são a força de vida através da qual se ergue uma Nação digna, respeitada e forte.
Que o novo ministro não seja nem rei nem rainha, mas um cidadão responsável e realmente interessado pela vida dos outros.





