O poder que assalta
Abrimos os jornais e o que encontramos são notícias de mais e mais assaltos do poder público contra os cidadãos. O principal deles, que é amparado por lei e por isso denomina-se assalto institucionalizado, é o do pedágio, que a partir de amanhã vai exigir que os usuários de veículos tenham mais dinheiro na carteira.
E as notícias se seguem: sindicato denuncia prefeito (naturalmente por irregularidades administrativas), caixa 2 de prefeito é investigado pela Polícia Federal, promotora ouve depoimento de vice-prefeito (também por denúncia de corrupção), ex-prefeito depõe e (naturalmente) nega acusações, promotora entra com recurso contra vice-governadora, desvios de universidade podem chegar a R$ 8 milhões.
Tudo isto no Paraná e em apenas duas páginas de jornal, porque se corrermos a edição inteira e lermos jornais todos os dias, encontraremos mais e mais, continuamente. Porém, entre as notícias, há uma do tipo punição de ladrão de galinha que, ao menos, dá um alento: um ex-vice-prefeito de Londrina, que era pródigo em dar cafeteiras como presente de casamento - naturalmente com dinheiro público - foi condenado e terá de devolver R$ 2,2 mil correspondentes a esses regalos. Enquanto isso, sobre os R$ 186 milhões da venda das ações da Sercomtel, nada se sabe. Algo que, ao que tudo indica, entrará na conta das coisas esquecidas.
É muito maior e mais voraz o contingente dos assaltantes que habitam as repartições oficiais e suas afiliadas do que os denominados assaltantes comuns. Estes são punidos porque os delitos que cometem não são institucionalizados e carecem do selo oficial. E o público - que às vezes pensa em armar-se para enfrentar esses delinquentes de menor categoria - parece inoculado contra os roubos e as arbitrariedades oficiais e posta-se em atitude de aparente impotência ante tanta violentação ''chapa branca''.
Bons ladrões sempre têm bons defensores, e estes conhecem e dominam bem os meandros e a elasticidade das leis. Assim, pelos vãos das brechas legais, fazem os processos irem rolando, até que caiam na caducidade. E assim a sociedade, pela implacável lei dos anos, acaba esquecendo.
A participação dos cidadãos, para que leis sejam mudadas e a Justiça se torne mais ágil, e a recusa - pela união das massas - em aceitar certas imposições, serão fundamentais nesse processo. Importa que a população não se quede contemplativa e inerte imaginando que nada é possível fazer. Não há poder maior do que um cidadão cheio de razão.

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