Nos últimos meses, uma espécie de revolução está acontecendo no mundo do trabalho. Ao mesmo tempo em que caiu o total dos trabalhadores que buscaram a greve como forma de conseguir resultados, caíram também tabus, como o princípio da irredutibilidade dos salários e de que em benefícios conquistados não se mexe. Além disto, ocorreu uma novidade verdadeiramente inacreditável: operários passaram a discutir não reajuste de salários, mas sim redução. Votaram em assembléias não acordos cheios de conquistas, e sim programação de investimento das empresas, seus planos de produtividade e competitividade, suas chances de sobreviver.
Os exemplos dessa nova situação envolvem os mais poderosos sindicatos do País e as duas maiores centrais sindicais. Diante de ameaças de demissões por todos os lados, o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Luiz Marinho, da Central Única dos Trabalhadores (CUT), comandou uma massa de 23 mil empregados da Volkswagen num movimento bem diferente das históricas greves e manifestações de protesto da categoria. Marinho colocou-os na luta global para atrair investimentos e reivindicar a produção da nova linha de veículos da marca no Brasil na velha fábrica de São Bernardo do Campo.
Essa foi a reivindicação principal dos trabalhadores da Volkswagen para aceitar a redução de seus salários, via corte de benefícios, e o fechamento de 4.062 postos de trabalho por meio de demissões voluntárias. Eles queriam que a maior parte do investimento da fábrica no Brasil, de R$ 3,5 bilhões em cinco anos, fosse para São Bernardo.
Especialistas no mundo do trabalho tomam conhecimento de um novo cenário. É uma mudança inimaginável dois anos atrás e que hoje abre perspectivas de solução negociada para um problema aflitivo: o desemprego. Um novo conceito sobre as relações capital-trabalho, que já vinha se delineando nos últimos dois anos, inclusive com acordos que sepultaram boa parte da legislação em vigor, abre caminhos altamente positivos. É a flexibilização das relações de trabalho que vem chegando por iniciativa da sociedade, em acordos firmados pelas partes diretamente interessadas.
É natural que esta situação provoque certa preocupação nos meios sindicais. Mas é uma evolução que se pode considerar natural, além de necessária, diante de uma nova realidade que força posicionamentos por vezes radicalmente diferentes do usual. Na verdade, não é de hoje a percepção nos meios da produção de que, ao contrário de velhas teorias, capital e trabalho têm interesses diversos, mas não necessariamente antagônicos. O papel dos governos é simplesmente garantir a estabilidade das novas relações.
Da metade desta década para cá, o Brasil está evoluindo rapidamente neste novo conceito. Durante muito tempo os governos mais atrapalharam do que ajudaram na obra de modernização e inserção do Brasil no mercado internacional. A forte ingerência do Estado na economia e nas relações de trabalho criou enormes obstáculos para todos os envolvidos. Finalmente, isso está mudando e a tendência é irreversível.
O Governo acompanha ainda vagarosamente esta mudança. A recente aprovação, pelo Senado, do contrato temporário de trabalho evidencia que os novos tempos também estão chegando aos escalões oficiais, embora (como de costume) de modo lento. Trabalhadores e empresários estão tomando a iniciativa nesta nova etapa que o mundo vive, e o Governo é apenas um espectador. Isto pode parecer ruim, sob o aspecto do Estado dominador, mas seguramente é a melhor coisa que poderia acontecer no Brasil neste final de século, como preparação para o novo milênio.

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