O secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, que iniciou ontem por Brasília visita oficial a países da América do Sul, disse que há desigualdades sociais ‘dolorosas’ no Brasil, apesar do salto extraordinário desde o Plano Real. ‘‘As favelas que vi no Rio poderiam estar em outro país’’, disse Annan em aula proferida aos alunos do Instituto Rio Branco, no Palácio Itamarati. Kofi Annan chegou a comparar algumas cidades nordestinas a áreas mais pobres da África. Mesmo assim, o secretário-geral da ONU afirmou estar confiante na determinação do governo brasileiro em acabar com essa desigualdade e garantiu a parceria das Nações Unidas no caminho do desenvolvimento e da justiça social.
Preocupações sociais à parte, a impressão que se tem é a de que o secretário-geral da ONU está tentando encontrar solução para uma questão muito mais séria no âmbito da Organização mundial: ocorre que estão em andamento gestões destinadas a ampliar o número de membros permanentes do Conselho de Segurança, o principal órgão da ONU, e tanto Brasil quanto Argentina se colocam como candidatos ao lugar como representantes da América Latina. O embaixador argentino ante as Nações Unidas, Fernando Petrella, declarou em Nova York que, durante a estada de Annan, não se tratará do tema porque ‘‘nada tem a ver’’ com a visita do secretário geral. No entanto, afirmou que não podia ter certeza de o assunto vir a ser abordado se Annan se referisse a ele ou expressasse seu interesse em conhecer o curso das negociações envolvendo Brasil e Argentina. Um porta-voz do departamento das Nações Unidas em Buenos Aires disse, por sua vez, que, de fato, a questão aparece como um dos principais temas a ser tratados pelo visitante com seus interlocutores argentinos. Petrella explicou que as posições sustentadas pela Argentina e Brasil ‘‘estão sendo discutidas nos grupos de trabalho’’ e afirmou que ‘‘é preciso compreender a necessidade de democratizar o Conselho’’.
Por seu turno, o próprio secretário-geral da ONU afirmou que o consenso entre os países-membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas é de que ele precisa mudar, pois reflete o mundo de 1945, não o de hoje. ‘‘O Conselho deve estar em sintonia com a realidade política e econômica de nossos dias’’, defendeu Annan, sem entrar, entretanto, na questão do pleito de brasileiros e argentinos, no sentido de se outorgar a um ou outro país uma das novas vagas permanentes no CS.
É indiscutível que a ONU deve mudar. Vem cumprindo seu papel, apesar de todos os percalços, desde o final da 2ª Guerra. Afinal, surgiu no curso daquele conflito como uma proposta para garantir que as divergências entre os povos passariam a ser resolvidas por via diplomática, pelo entendimento. Meio século passado, terminada a guerra fria, estabelecida uma nova realidade mundial, é certo que o organismo precisa se modificar. A questão a discutir é o tipo de mudança que se projeta, diante mesmo desta questiúncula regional sobre a representação no Conselho de Segurança. Aumentar o número de membros permanentes do órgão, dar a outros países o poder de veto (que apenas serviu para evitar que os choques de interesses entre o Ocidente e a União Soviética acabassem com um organismo frágil, como o era a ONU), não são as mudanças efetivas que o organismo exige. Importa menos se Brasil ou Argentina se tornarão membros do Conselho de Segurança, mas se a ONU conseguirá, neste final de século, tornar-se o que foi sonhado nos primórdios do organismo, o grande parlamento em que o mundo resolva, sem sangue, sem guerras, todas as suas pendências.

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