Editorial - Mudança gradual
Mudança gradual
Em função da redução de 20% para 10% na alíquota de recolhimento compulsório sobre depósitos a prazo haverá uma redução nos juros cobrados ao consumidor, nos próximos 15 dias, conforme expectativa do novo diretor de Finanças e Mercado de Capitais do Banco do Brasil, Vicente de Paula Diniz. Os que estão com saldo negativo no cheque especial devem sentir este efeito rapidamente, segundo os especialistas. O Banco do Brasil já antecipou redução tanto no cheque especial quanto no Crédito Direto ao Consumidor, acreditando que outros estabelecimentos devem também seguir por este rumo.
Para os permanentemente pessimistas, o anúncio ainda é tímido diante dos grandes problemas que existem na esfera dos juros. Todavia, é oportuno perceber que esta diretriz agora adotada pelo Comitê de Política Monetária acontece logo em seguida a pronunciamentos feitos pelas autoridades econômicas, inclusive o presidente do Banco Central, sobre os juros que são praticados pelo mercado. Em recente comentário a respeito, o presidente do BC deixou claro o entendimento segundo o qual os juros que estão sendo cobrados pelas entidades financeiras, bancos, cartões de crédito e outros, são elevados demais, inclusive diante da importante redução que vem sendo feita da chamada taxa básica, que foi mantida em 19,5% ao ano. Na ocasião, o titular do BC assinalou considerar inaceitáveis taxas que andam, em alguns casos, pela casa dos 300% ao ano.
Esta política de juros altos demais também inibe a retomada do crescimento. É certo que as instituições financeiras apresentam uma série de justificativas para manter as taxas elevadas, inclusive a preocupante inadimplência. Ocorre que é preciso pensar também que esta política provoca um verdadeiro círculo vicioso: como o juro é alto, o tomador tem dificuldades em pagar e se torna inadimplente; e como a inadimplência aumenta, o juro sobe mais. A medida anunciada agora pelo Copom não representa, naturalmente, um avanço que permita ou leve à redução imediata e plena nos juros que são cobrados aos tomadores. Todavia, constitui um primeiro passo, podendo estabelecer o círculo vicioso positivo, com queda nos juros, elevação no nível dos empréstimos e, finalmente, retomada dos negócios.
Em recente pronunciamento, o ministro Pedro Malan, que vem sendo bastante criticado por vários segmentos políticos, afirmou que o Brasil precisa superar a tentação do discurso fácil e tratar com seriedade os seus problemas. Ele disse que é muito fácil criticar a miséria, a fome, a violência, a corrupção e a hipocrisia e responsabilizar o governo por não ter resolvido todos esses problemas. E observou ainda que em todos os casos os países que tiveram desvalorização cambial como o Brasil, registraram nos anos seguintes um aumento da produção e das exportações. Com isso, Malan prevê o equacionamento da balança de pagamentos nos próximos anos, não só em função da balança comercial, mas também pelos investimentos diretos e redução das obrigações financeiras do País, que no ano que vem, segundo o ministro, serão muito inferiores às deste ano. O que ressalta, ademais, no discurso é a percepção de que as transformações precisam ocorrer de modo gradual, sem que se percam as conquistas obtidas e sem buscar soluções mágicas ou milagrosas que não existem. O que existe, e o que se precisa continuar a fazer no Brasil, é a condução adequada do processo, com medidas possíveis, como esta adotada pelo Copom. A redução gradual dos juros para o consumidor abre novas e alentadoras perspectivas. Ainda é um pequeno começo, mas o caminho para se avançar na luta contra a crise parece adequado.





