O Carnaval, pelo menos no Brasil, faz que os problemas sejam esquecidos. Assim são postas de lado as dificuldades causadas, notadamente na região sul, pela prorrogação do horário de verão. Afinal, tudo é festa, não há aulas nas escolas, as crianças podem dormir até tarde, muita gente faz o mesmo. Até mesmo para os desfiles de escola de samba, que adentram pela manhã, o horário ajuda: desfilar debaixo de Sol cansa mais e tira um pouco de brilho das escolas. Como, devido ao horário de verão esticado, o dia só começa a clarear pelas 7 horas, há mais tempo para o desfile.
Mas o problema volta com toda força logo depois do Carnaval. Mas, naturalmente, como a semana é curta e no sábado os relógios voltam ao fuso normal, a impressão é a de que não vale a pena discutir mais o assunto. Há, porém, um aspecto que não pode ser descurado: pouco adianta, de fato, discutir agora a prorrogação determinada pelo Governo, ainda que haja técnicos que comprovem que nestes últimos dias não houve economia de energia, mas é preciso insistir na necessidade de se planejar soluções mais objetivas para o problema. Horário de verão é uma espécie de panacéia, um remendo. De fato, produz uma redução no consumo de energia, mas não é solução. O Brasil precisa, e com urgência, redimensionar seus projetos para a geração de energia e, também, eventualmente, de novas políticas destinadas a racionalizar o consumo. Nesta, como em tantas outras questões, trata-se de insistir na necessidade de se aprofundar a análise para, de um lado, aumentar a produção e, de outro, reduzir o consumo de modo inteligente.
A necessidade de reformular conceitos, visando a racionalização do consumo, se torna ainda mais premente diante da falta de recursos para os investimentos necessários ao aumento da produção. E isso fica ainda mais evidente quando pensamos na principal justificativa para prorrogar o horário de verão: trata-se de garantir mais alguns dias de economia diante da precária situação energética no Estado do Rio, principalmente. Isso leva à mudança de conceitos: há que se analisar a questão local e propor soluções. Estas podem inclusive levar a propostas de mudanças no ritmo do trabalho, tanto naquele como em outros Estados. Quando se recorda que o maior problema é o chamado horário de pico, é fácil perceber que mudanças até nos horários de trabalho podem alterar todo o esquema, reduzindo assim o risco dos chamados blecautes.
O problema básico, porém, é precisamente este: a tendência que se tem de não alterar o que vem sendo feito há décadas. Cidades grandes enfrentam problemas sérios no trânsito, nos horários de rush, mas ninguém tem coragem ou vontade de pensar em alterações simples, em mudanças que evitem que a maioria dos trabalhadores saia e volte para casa na mesma hora. No entanto, uma simples readequação de horários poderia diminuir os problemas de trânsito e, por extensão, também alguns dos riscos do consumo excessivo de energia em determinados horários.
Naturalmente, isso não resolve todo o problema mas constitui o começo para uma análise que produza soluções diferentes diante de desafios cada vez mais graves. Para qualquer economia, inclusive a doméstica, é melhor produzir mais quando o consumo cresce. Mas se esta opção é difícil, o outro caminho é o da redução no consumo, que se pode fazer pela racionalização, por mudanças nos hábitos individuais ou coletivos. O que é preciso para começar é coragem para assumir as mudanças.

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