Editorial - Mobilização e democracia
Mobilização e democracia
A nota divulgada pelo Conselho Permanente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), afirmando que as manifestações e mobilizações que estão acontecendo nestes dias traduzem um descontentamento crescente e assinalando, ainda, que representam um preocupante sinal de alerta, define de modo claro o motivo pelo qual milhares de pessoas estiveram, ontem, em Brasília, participando do protesto convocado pelas oposições. No documento, a Igreja Católica faz um alerta sobre a situação econômica e política do País, afirmando que é preciso subordinar os dois temas à ética, rememorando ainda que a chamada lógica do mercado, esquece a centralidade da pessoa humana. Seria adequado também considerar que a manifestação acontece como uma reação. Existe uma situação real de dificuldade a atingir um número elevado de brasileiros. Falta também o que é pior a perspectiva de que os problemas possam ser resolvidos, ainda que com mais sacrifícios, o que acaba criando um clima propício a protestos. Ademais, faz parte do próprio jogo democrático a liberdade de expressão e de mobilização, desde que, como tudo indica aconteceu em Brasília, dentro do clima de respeito à lei.
O que preocupa não é a manifestação em si, mas uma programação que revela a intenção de se transformar este tipo de atitude em uma forma de ação política para debilitar ainda mais o governo. O presidente de honra do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, sugeriu, durante discurso feito na Esplanada dos Ministérios, que as oposições promovam atos em uma capital diferente a cada mês, para protestar contra as privatizações e contra a política econômica do governo. Por seu turno, o coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Pedro Stédile, afirmou que a Marcha dos 100 Mil este o nome dado à manifestação de ontem é apenas o início de uma onda de protestos contra o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso. Ele confirmou a chegada, em outubro, da marcha do MST a Brasília para protestar contra a política fundiária do governo. No momento, esta marcha encontra-se em Minas Gerais, procedente do Rio de Janeiro, de onde saiu no início de julho.
Este tipo de mobilização permanente preocupa. E diante de certas propostas, como as do ex-governador do Rio, Leonel Brizola, que insiste em exigir a renúncia do presidente, fica-se mais alarmado porque esta indicação representa uma atitude, no mínimo, ilegal. A lei faculta ao sr. Brizola, ou a qualquer pessoa, criticar o governo e o presidente. As coisas se tornam mais complicadas quando surgem acusações sérias como as de que a reeleição foi obtida de modo irregular. Por enquanto, legal e juridicamente, não há como aceitar este tipo de afirmação. Assim como não se pode receber com tranquilidade qualquer tipo de proposta que possa representar ilegalidade. O mesmo direito que tem a oposição de protestar tem o presidente em seu mandato, obtido legitimamente e com maioria absoluta do eleitorado.
O propósito da oposição, como assinalou a nota da CNBB, é deixar claro ao governo que há uma grande camada da população insatisfeita com os rumos da atividade oficial. Isto, aliás, reafirma os índices que indicam a crescente perda de popularidade do presidente da República. O caminho porém não pode ser o de persistir em mobilizações, transformando uma ação política em ação eleitoreira. Incumbe às lideranças políticas dar sequência à vigilância e às exigências quanto ao trabalho do governo. A oposição pode dar grande contribuição para mudar a situação e melhorar a vida dos brasileiros, dentro da lei e da ordem democráticas.





