Editorial

Ministros em férias
Enquanto toda a economia mundial sofre o abalo da quebradeira asiática; a Câmara Federal aprova o fim da estabilidade no emprego público; o Tribunal de Contas do Paraná desautoriza o pagamento de 13º salário aos vereadores; e os governos estaduais e prefeituras de todo o País se preparam para cortar fundo suas despesas, o vice-presidente da República em exercício, Marco Maciel, sanciona projeto autorizando férias para os ministros. A partir de agora, assim como os servidores públicos e os assalariados privados, os ministros terão direito a 30 dias de férias por ano trabalhado, com todas as vantagens e regalias adicionais - pois quando se trata de defender os próprios interesses, os políticos brasileiros são muito criativos.
Não será nenhuma surpresa se, rapidamente, idêntica decisão vier a ser adotada nos Estados e nos municípios, beneficiando os secretários, pois espírito de equidade é coisa que não falta entre os homens públicos. Ficaram de fora deste ‘trenzinho de alegria’ de fim-de-ano o presidente da República e o vice, o que talvez venha a ser ‘corrigido’ em breve, pois eles também podem alegar tranquilamente que são trabalhadores.
Tudo somado, a folha de salários do setor público nacional deve aumentar alguns milhões de reais, justo na hora em que o Governo enfia goela abaixo da população um pacote cujo ônus maior recairá sobre a classe média brasileira, as empresas e os seus empregados. Há apenas dois dias, aliás, milhares deles se puseram na linha de fogo da demissão em São Paulo, mas as fotos de primeira página dos jornais de ontem não chamaram a atenção do vice em Brasília.
Não tanto pelo dinheiro, mas pelo exemplo, esta foi a pior a hora para se apor a assinatura presidencial num projeto de lei desse quilate. É desmoralizante para o País, perante sua população e a comunidade internacional. No momento em que se tenta ajustar o Estado, moralizar a ação governamental - e a proibição de pagar 13º aos vereadores se enquadra bem nisto -, este tipo de autobenefício pega tão mal quanto o projeto de políticos lunáticos que ainda querem derrubar o teto salarial estabelecido na reforma administrativa no que se refere aos salários deles.
Não há justificativa para o lobby contra o teto, assim como o pagamento de férias para ministros. Ministros, presidente, governadores e os parlamentares trabalham segundo normas e procedimentos totalmente diferentes do que a legislação trabalhista estabelece para o setor privado. Igualmente, não há como equipará-los ao funcionalismo público, pois a relação de trabalho deles também é diferente da dos servidores contratados.
Mas estas razões não são suficientes para segurar a mão dos interessados. Eles legislam em causa própria, aumentam seus próprios salários quando querem e quando acham bom, criam adicionais estapafúrdios quando estão em sessão e quando não estão e ainda cobram pela presença quando aparecem para trabalhar. Para arrematar, inventam aposentadorias escandalosas para si mesmos, em flagrante desrespeito a todos os trabalhadores que levam uma vida inteira para se aposentar e receber uma insignificância até a morte.
Causa mal-estar ver que até os ministros queriam uma boquinha. Agora só falta 13º e aposentadoria como a de deputado. Por que não? Afinal, ministro trabalha mais que deputado e ainda tem o ônus do cargo. Mas tudo isso, senhores, é incoerente com o discurso da austeridade e com as medidas do pacotaço descarregado sobre a população. É, também, desrespeitoso com o funcionalismo federal, que há três anos não tem aumento apesar de a inflação do período beirar os 100%. E 33 mil deles, fora os estaduais e municipais, ainda vão perder o emprego pelo bem do Brasil...
Não era a hora de se criar mais benefícios. Era, sim, a hora de se pensar na Pátria e se juntar aos sacrifícios da população. Esta deveria ser a conduta de estadistas, e não de simples ocupantes de cargos executivos na administração pública. Mas se isso é pedir muito, que pelo menos olhassem para os princípios da social-democracia inglesa, onde se encontra o presidente da República e onde, ele diz, está o molde do PSDB.
Palavras, palavras... A imagem do Poder volta a ser, para o povo, a dos palácios com gabinetes refrigerados e corações congelados.

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