Editorial - Mercosul e salvaguardas
Mercosul e salvaguardas
O presidente Fernando Henrique Cardoso já havia antecipado: havia apenas dois modos de se resolver adequadamente a crise deflagrada pela Argentina com o estabelecimento de salvaguardas para a importação. A primeira seria a eliminação da medida; a segunda, uma decisão definindo claramente que aquilo não poderia ser aplicado aos países do Mercosul. Na noite de quinta-feira, o presidente argentino Carlos Menem esteve no Brasil, em uma visita não prevista, manteve um longo encontro com o presidente brasileiro e ao final foi anunciado que a Argentina se comprometeu a revogar a aplicação da resolução 911, que impõe salvaguardas à importação de produtos originários dos países do Mercosul.
O chanceler argentino Guido di Tella destacou na ocasião que a Argentina dá uma importância central para suas relações comerciais com o Brasil, assinalando que esta opinião retrata uma convicção profunda do governo argentino. Di Tella considerou que quando as transações comerciais entre países crescem muito, surgem problemas de todo tipo, mas que os governos estão procurando superar esta situação - no caso do governo argentino, com a revogação da resolução 911. Ele considera igualmente vital que seja analisada também a evolução global do comércio de toda a região e que sejam adotados mecanismos de previsão dos problemas econômicos que possam surgir na região.
Ontem, a imprensa argentina mostrou certo alívio pelo acordo conseguido no encontro de emergência entre Carlos Menem e Fernando Henrique Cardoso. O secretário-geral da Presidência argentina, Alberto Kohan, defendeu o acordo e minimizou críticas de alguns setores que podem ser afetados por esta decisão, assinalando que seria muito mais perigoso pôr em risco o acordo do Mercosul. Kohan lembrou também que a Argentina propôs a discussão de cada um dos problemas existentes e ressaltou que quando há variedade de interesses, sempre surgirão temas para discussão.
Ainda haverá repercussões sobre o assunto. Alguns círculos políticos e econômicos argentinos mostram-se irritados. Para os primeiros, qualquer tipo de atitude que possa dar a idéia de recuo é negativa. Já os segundos se ressentem porque estão enfrentando dificuldades com a maior competitividade dos produtos brasileiros após a desvalorização do real. É sempre imperioso ponderar que quando alguém, pessoa ou país, adota uma decisão sem levar em conta todas as consequências, corre o risco de voltar atrás. A imposição de salvaguardas - uma espécie de imposto sobre a importação - representou uma atitude no mínimo discutível para quem participa de um bloco do tipo do Mercosul. Qualquer medida de restrição de importações tem de ser analisada e adotada em conjunto. Quanto aos empresários, que estão sofrendo efeitos da mudança da situação cambial, é importante lembrar que este é um problema dos tempos atuais e que o desafio de cada um é precisamente o de enfrentar estas questões e encontrar alternativas.
Importa lembrar que o Brasil oferece muito mais do que ganha nesta etapa do Mercosul. É o maior mercado do bloco e está agindo de modo aberto. Por causa disto, inclusive, a Argentina se tornou um dos mais importantes parceiros comerciais do País nos últimos anos. Vale lembrar que, mesmo com a desvalorização do real, a balança ainda apresenta déficit do lado brasileiro. O que é necessário é que todos os países do bloco persistam no trabalho de união, superando os entraves e apostando no que é mais concreto: a certeza de que o bloco acabará por se tornar um dos mais importantes e fortes pólos de comércio do mundo, o que beneficiará a todos os envolvidos.





