Editorial - Mendonça e o grampo
Escolha de ministro constitui, segundo o sistema presidencial brasileiro, atribuição exclusiva do presidente da República. É cargo da mais absoluta confiança presidencial e é ele quem escolhe e nomeia, assim como também pode demiti-lo por qualquer motivo. No furacão provocado pela revelação de suas inconfidências ao telefone, o famoso caso dos grampos, as pressões contra o ministro das Comunicações, Mendonça de Barros, se tornam enormes. O próprio ministro já pediu demissão - o que nem seria necessário, mas evitaria o constrangimento de uma exclusão pura e simples. O presidente, no entanto, usando o poder do cargo, não aceitou.
O problema, naturalmente, poderia ser contornado sem drama. Afinal, o presidente Fernando Henrique Cardoso está terminando o primeiro mandato e deve ser empossado, no começo de 99, para mais quatro anos, graças à reeleição obtida em outubro. Nesta retomada do cargo, o presidente pode realizar uma reforma do seu ministério, até porque o reeleito foi ele. Assim, a eventual troca do ministro das Comunicações na recomposição com vistas ao segundo mandato poderia ser encarada como uma alternativa até natural. Isso ainda seria mais facilitado porque se sabe que a composição ministerial também é muito usada pelo titular do Executivo para as negociações políticas visando o tão necessário apoio no Legislativo. E muitos dos partidos que formam a base de força do presidente bem que gostariam de conseguir para um de seus membros o tão poderoso Ministério das Comunicações. Ou, até, o novo Ministério em gestação, o da Produção, que deveria ser entregue ao hoje desgastado Mendonça de Barros.
Ocorre que, em face das ocorrências, o afastamento de Mendonça de Barros do Ministério do segundo mandato presidencial seria visto como fruto da pressão política, o que chegaria a ferir o próprio poder presidencial. Não por outro motivo, assessores de FHC consideram que se o presidente ceder agora poderá se tornar refém das siglas que, em tese, lhe darão apoio Legislativo, durante os próximos quatro anos - o que chega a ser chocante. Ademais, diante deste jogo político, parecem abandonadas as questões mais sérias. Uma sobre a competência do ministro, sua condição de realizar o trabalho para o qual foi nomeado; outra relativa à própria origem de toda a novela, o grampo telefônico, crime que, aparentemente, está sendo esquecido.
Vale sempre lembrar que, por ter falado bobagens, diante de um microfone que pensava estar desligado, o então ministro Rubens Ricúpero foi sumariamente afastado do governo. Não se tratava, no caso, de um grampo telefônico, mas de um eventual esquecimento de alguém que deixou um microfone ligado e permitiu que expressões pouco lisonjeiras sobre o povo e o governo fossem divulgadas via satélite. O fato evidencia que a simples redução da confiança do povo em um ministro pode, também, ser fator capaz de afastá-lo, ainda que continuando a gozar da confiança do presidente. Este poderia (e talvez deveria) ser um enfoque adicional e que vem sendo posto de lado: o que pensa a população a respeito, ainda mais porque a questão envolve diretamente a privatização, um assunto da maior relevância para a transformação do Estado brasileiro.
Nos Estados Unidos, país em que escândalos oficiais repercutem até mais, há uma preocupação em ouvir o povo. O caso Lewinsky é típico: constantemente têm sido feitas pesquisas para saber o que a população pensa sobre o assunto e qual a solução que espera. Talvez fosse o caso de se fazer o mesmo aqui, buscar saber o que os brasileiros pensam do episódio, do ministro e até da reação do presidente.





