Editorial - Maremoto econômico
O maremoto universal que se manifesta nas bolsas de valores de todo o mundo, e parece não ter fim, está criando um clima de pânico nos diversos mercados, deixando desnorteadas as pessoas que não conseguem entender como (ou por que) a queda na Bolsa de Hong Kong pode, entre outras coisas, forçar altas nos impostos brasileiros ou demissões no serviço público federal. Entretanto, não há nenhum mistério nisto e a dificuldade que existe, no Brasil, para entender o que está acontecendo se deve ao fato de que passamos décadas isolados do mundo, numa economia fechada em que a reserva de mercado para o capital nacional nos trouxe vantagens efêmeras e ilusões que mais cedo ou mais tarde, por bem ou por mal, teriam de se desfazer.
O que está acontecendo é, antes de tudo, a singela revelação de que governos não devem gastar mais do que arrecadam. Nenhum mortal vive a vida toda gastando impunemente mais do que recebe. Pode enganar os outros por bastante tempo, se for um estelionatário de primeira. Mas com os governos e os países é diferente: suas contas são logo desmascaradas e as apostas sobre a desvalorização de suas moedas, se estão sobrevalorizadas, começam instantaneamente por toda a parte. Aventureiros endinheirados ficam ainda mais ricos fazendo apostas contra esses governos nos mercados futuros.
Em segundo lugar, mas tão óbvio quanto, o maremoto universal revela que os bens existentes na sociedade humana não podem valer mais do que de fato valem. Ações de empresas devem expressar valores reais acrescidos das expectativas do público sobre a continuidade da sua saúde econômica. Se as expectativas se tornam irreais, um dia serão confrontadas com a dura realidade.
Um terceiro aspecto desse maremoto é que ele acontece porque o mundo, neste final de século, ficou muito menor do que era cem anos atrás. A tecnologia, a informática e a riqueza maior das pessoas, empresas e países tornou tudo mais próximo e interdependente. A globalização abriu possibilidades imensas a todos, mas, como sempre ocorre, serve primeiro aos mais espertos e rapinantes. Neste mundo que se tornou pequeno, alguém em qualquer parte do planeta e sem sair de casa pode agir por toda parte.
Os modernos piratas do século 21 navegam pela Internet, não mais em caravelas, e usam o dinheiro não como instrumento de produção, capaz de gerar riquezas que beneficiem a todos, mas como alavanca para fazer mais dinheiro. E a pirataria vai continuar assaltando mercados ao redor do mundo enquanto não houver freios que a dominem. Naturalmente, as culpas não devem ser jogadas sobre a Internet, a globalização ou a modernidade, como alguns querem. Na verdade, somos todos inocentes e o que devemos fazer é criar regras e mecanismos que disciplinem o capital ocioso e o façam internar-se na produção.
A civilização deve agir em conjunto em sua própria defesa. Socialistas reunidos na Europa recomendam que o modo de conter a ação dos especuladores é o fortalecimento do Estado. Esquecem que os governos são frequentemente corruptos e ineptos e que, isoladamente, mesmo um bom e forte governo não servirá para nada. Esses mecanismos e sistemas de proteção deverão vir de órgãos internacionais, a partir de debates internos nacionais. Todas as entidades da economia pública e privada devem ser chamadas a ele, num movimento para unir todas as nações, as ricas, as emergentes e as pobres, a fim de se protegerem de forma inteligente e articulada.
A onda especulativa passará quando o mundo globalizado estiver mais organizado e protegido. E quando os governos e aprendizes de feiticeiro tiverem aprendido de uma vez por todas as lições de casa citadas acima.





