Os temores manifestados por alguns meios da oposição, mas também presentes junto à coletividade em geral, de que o governo federal pode adotar medidas que coloquem em risco o plano de estabilização, buscando melhorar sua performance com vistas à reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso, não são de todo absurdos. Diante de um pleito eleitoral, muitas coisas mudam, existe uma tentação enorme de se apelar para soluções que normalmente não seriam sequer pensadas. E quando, como ocorre agora, os chefes de Executivo em exercício são os próprios candidatos à sucessão, este tipo de pressão pode ser maior. Afinal, eles, o presidente, os governadores (e dentro de dois anos os prefeitos), estão com o poder na mão. Se de repente percebem que podem perder o cargo devido a uma situação difícil, criada por medidas mais duras que tiveram de ser tomadas, é muito possível que sejam levados a adotar alternativas mais populares, a fim de garantir novo mandato. E podem até alegar a si mesmos que uma vez atingido o objetivo - a reeleição -, estarão em condições de corrigir os eventuais problemas que venham a surgir.
Ocorre que as coisas não podem ser levadas desta forma. No caso específico do plano de estabilização e dos problemas que ainda existem, a tentação de criar agora certas alternativas para ‘facilitar um pouco as coisas’ é tremendamente arriscada. É preciso lembrar que foram quatro anos de lutas, sacrifícios e dificuldades até se chegar à situação atual, com inflação baixa e perspectivas positivas de se atingir a tão necessária estabilidade. Importa também insistir em que, até o momento, o governo, principalmente o Legislativo, ainda não concluiu a parte que lhe cabe neste grande projeto, o que sem dúvida produziu mais dificuldades. Pensar agora em mudar as coisas, em produzir ‘‘um pouco de inflação’’ para tentar corrigir alguns problemas, como chegou a sugerir o presidente da Câmara Federal, Michel Temer, é mais que um erro, é um tremendo perigo.
Felizmente, uma vez mais o Executivo acaba de dar garantias claras de que não pretende buscar este aparente caminho mais fácil na tentativa de conseguir a reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso. O coordenador político da campanha do presidente Fernando Henrique Cardoso à reeleição, o paranaense Euclides Scalco, disse que o governo não tomará medidas de risco à estabilização econômica para melhorar a popularidade do presidente. Scalco assinalou não estar informado dos programas do governo para a criação de empregos, como o incentivo à construção civil e o financiamento da agricultura familiar, mas disse acreditar que os recursos para esses programas estejam previstos no orçamento, o que significa que não constituem mudanças de rumo com metas simplesmente eleitorais.
Mas além destas garantias falta ainda que o Executivo dê evidências de que está realmente disposto a fazer o que deve para melhorar as condições de vida do povo, independente das eleições. Vale rememorar o fato, verdadeiramente fundamental, de que o programa de estabilização, lançado antes das eleições que consagraram o sr. Fernando Henrique Cardoso (mentor do projeto) ainda não foi implementado nas medidas que dependem do governo. E embora pareça até ocioso esperar que nesta época - com Copa do Mundo, festas juninas e depois a campanha eleitoral - o Congresso ainda faça alguma coisa, incumbe ao Executivo se esforçar não para mudar, mas sim para completar o projeto que, aliás, foi o principal responsável pela vitória de FHC há quatro anos.

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