Gasolina, diesel e GLP mais caros, uma receita infalível para provocar, na esteira, um aumento generalizado no custo de vida, o que pode significar uma alta inflacionária. É verdade que o Brasil vive hoje uma realidade diferente da de há alguns anos, assim como também é certo que a liberação nos preços dos combustíveis, realizada dentro da política de desregulamentação do setor, acabou não produzindo nenhum grande salto da inflação. Do mesmo modo, a majoração recente das tarifas de água e energia elétrica, apesar do impacto direto sobre ponderável parcela da produção, não teve como resultado nenhuma explosão inflacionária. Não há dúvidas, porém, sobre a possibilidade real existente neste momento, ainda que a elevação nos preços não seja percentualmente tão grande e mesmo se sabendo que o efeito final não é de molde a prejudicar o esforço global.
Por outro lado, é inegável também que esta alta tem um objetivo importante nesta complexa etapa do ajuste, pois decorre da eliminação de subsídios aos derivados de petróleo. E subsídio, sabe-se, é um tipo de benesse oficial que onera, ainda que indiretamente, a todos os setores. Quando o poder público subsidia os combustíveis, por exemplo, está beneficiando diretamente os consumidores. E quem paga este benefício é a população em geral, através dos impostos. Assim, em tese, uma política justa é aquela em que não há subsídio de espécie nenhuma: cada um paga o que consome. E o governo economiza, reduz seu déficit.
Ocorre que não se vislumbra ainda uma política consequente nesse como em outros setores. Desde que se lançou o plano de estabilização da economia, há mais de quatro anos, sabia-se que o maior de todos os problemas, a causa principal mesmo do descalabro econômico no país, era o incontrolável déficit público. Toda a engenharia que se engendrou para que o Plano Real desse certo tinha como objetivo dar folga ao governo para que, com tempo, contivesse seus gastos e zerasse - este o objetivo final - o déficit. Mas não foi o que aconteceu. As reformas estruturais (parte importante do programa) não se concluíram. Do mesmo modo, o próprio governo não dá mostras de uma disposição efetiva no sentido de conter seus gastos e de acabar com seus abusos. O resultado é que nunca o déficit público esteve tão elevado quanto agora.
A retirada de subsídios constitui parte importante de um programa de saneamento das finanças. Poderia ser acompanhada de um esclarecimento mais amplo do poder público, que está falhando nisto (como também no capítulo das privatizações), por não tentar esclarecer a população sobre as mazelas da política demagógico-paternalista que se implantou há séculos neste país. Seria extremamente valioso este tipo de atividade, inclusive para modificar conceitos que fazem até parte do caldo cultural da vida nacional. É imperioso que se esclareça que o governo não deve dar nada a ninguém - se beneficia a alguns é porque outros estão pagando.
Mais importante ainda, porém, é a adoção pelo governo de medidas concretas na ação interna. Nestes quatro anos de existência do plano de estabilização, o grande agente do sucesso do programa foi o povo, que o assumiu e que tem sido o principal responsável por muitas mudanças. Continua a faltar ainda a contrapartida oficial, maior seriedade na gestão do que se arrecada, o fim dos privilégios que ainda persistem, a ação concreta contra os abusos e malversações do dinheiro público. Sem isto, os sacrifícios todos, inclusive este novo da majoração nos preços dos derivados do petróleo, acaba frustrado. E o objetivo maior, o do zeramento do déficit público, fica cada vez mais distante.

mockup