As grandes mudanças na História da civilização estão intimamente ligadas a lutas, mortes e muito sofrimento. Um dos momentos mais marcantes desta transformação foi a Revolução Francesa, que derrubou não só a monarquia, mas tentou introduzir um novo conceito nas relações entre os homens, na questão vital do modo de se estabelecer um governo. Milhares de pessoas foram guilhotinadas, um espetáculo que se repetia todos os dias, com a presença e a participação ativa de multidões, que contavam as cabeças que iam rolando. Era a vingança, certamente, contra a opressão terrível sofrida pelo povo, embora fosse um momento lamentável da História da raça humana.
A guerra da Independência norte-americana, outro marco fundamental na evolução dos conceitos humanos relativos ao relacionamento governantes-governados, foi também sangrenta e trágica. Criou-se, sem dúvida, uma nova forma de entendimento, um modelo diferente de tudo quanto se havia visto antes na vida dos povos. O que se definiu ali, como base da República dos Estados Unidos da América, foi e tem sido exemplo para a humanidade. O estabelecimento de conceitos segundo os quais o governo deve ser ‘‘do povo, pelo povo e para o povo’’, representa um dos mais importantes avanços obtidos pelo homem em toda a sua História. Porém, para se chegar àquele patamar, muitos foram os que deram a vida.
Na França como nos Estados Unidos ou na Inglaterra e também em outros pontos da Terra, a luta dos homens em busca de sua afirmação e da dignidade representaram momentos dramáticos e importantes. E é em função de tantos sacrifícios que a democracia existe hoje em grande parte dos países do mundo. A liberdade que se pode desfrutar amplamente é fruto não só de ideais, que são importantes, mas de árduas batalhas travadas por homens e mulheres, que não aceitavam a imposição de outros, que queriam não só garantir sua dignidade, mas também a de todos os seres humanos.
A situação que se vive hoje no Brasil, o ato que vai se realizar amanhã, o do voto, isto tudo é fruto e soma de todos os sacrifícios feitos por incontáveis heróis ao longo do tempo. Não dar a esta realidade o devido valor, fugir à participação simples que a democracia cobra do cidadão é mais que uma omissão, constitui um verdadeiro crime contra a História. Os que morreram pela liberdade - e o Brasil também teve seus mártires -, são novamente vilipendiados quando o cidadão decide não participar do processo eletivo como o deste domingo.
A preocupação do presidente Fernando Henrique Cardoso em relação à abstenção do eleitorado tem um motivo particular, sem dúvida. Sabe o chefe da Nação que uma abstenção elevada pode até ameaçar sua esperança de uma vitória no primeiro turno. A questão, porém, é muito mais séria do que isto. O desinteresse em face do pleito, sob qualquer alegação, não é (como alguns ainda insistem em afirmar como desculpa) um modo de contestar a política ou um repúdio aos políticos. Faltar, não votar, anular o voto, estas manifestações não são apenas infantis, representam de fato uma ameaça a todas as conquistas da cidadania. E não se pode esquecer que nunca, como atualmente, o brasileiro evidenciou tamanha consciência sobre o papel que pode desempenhar como agente de seu próprio destino. As impressionantes vitórias do cidadão, consubstanciadas inclusive na quebra da inflação, precisam ser agora coroadas com uma presença maciça nas urnas, ponto fundamental no processo de crescimento de um povo.

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