Teve início segunda-feira, em Bonn, Alemanha, uma nova conferência da ONU para discutir as regras destinadas a permitir à comunidade internacional prosseguir na luta contra o aquecimento climático do planeta. As perspectivas para o encontro, que se prolonga até o final da próxima semana, não são muito alentadoras, entre outras coisas porque os principais países poluidores se recusam a concordar com qualquer tipo de concessão. Os Estados Unidos são o principal poluidor do planeta, com 36% das emissões, dentre os países ricos. E suas emissões de gás causadores do efeito estufa, que deveriam ser reduzidas em 7% em 2010 (com base em 1990), aumentaram 11% em 1997. Os resultados da União Européia não são muito melhores. A UE anunciou em maio que no ritmo atual suas emissões aumentarão de 6% a 7% em 2010, quando deveriam ter diminuído 8%.
Ainda assim, altos funcionários de 145 países estão tentando chegar a um acordo sobre as modalidades de aplicação do protocolo de Kyoto, texto adotado em 1997 por 159 países dentro da Convenção do Rio sobre as mudanças climáticas. O protocolo, ratificado até agora apenas por 22 países em vias de desenvolvimento, estipula que os países industrializados e em transição para uma economia de mercado, devem reduzir 5,2% em média suas emissões de gás carbônico (CO2) e de outros cinco gases considerados responsáveis pelo aquecimento do planeta. Os países pobres estão isentos desta obrigação, que diz respeito às emissões médias dos anos 2008 a 2012 comparadas com as de 1990. Um calendário previamente estabelecido prevê que a entrada em vigência do protocolo seja adotada pelos ministros em sua última rodada de negociações, prevista para se realizar em Haia, entre os dias 13 e 24 de novembro deste ano. Para aumentar as possibilidades de êxito, uma última conferência preparatória foi programada para ocorrer em Lyon (França), entre 4 e 15 de setembro.
A certeza é a de que há muito a fazer no que se refere aos ‘mecanismos de flexibilidade’, que permitirão aos países desenvolvidos intercambiar excedentes e déficits de emissões (‘permissão de emissão negociável’), e aos países ricos obter permissões extras de emissão de gases se ajudarem os países ex-comunistas (‘aplicação conjunta’) ou países pobres (‘mecanismo de desenvolvimento limpo’) a equiparem-se com tecnologias limpas. Estes mecanismos, que desembocarão em mercados financeiros de milhares de milhões de dólares anuais, foram classificados de ‘permissão para poluir’ porque possibilitam aos países mais desenvolvidos evitar que se tome medidas concretas em seus territórios.
O que provoca maior consternação ante as dificuldades que se colocam para conseguir a adesão dos países que mais poluem é sentir a verdadeira inconsciência diante de um problema real. Efetivamente, as questões em debate nas conferências sobre o clima não envolvem problemas individuais ou regionais. Interessam ao mundo todo, na medida mesmo em que já se comprovou que a ação continuada e irresponsável contra o meio ambiente põe em risco a vida em todo o planeta. Não há como pretender que o assunto possa ser circunscrito a determinada área do mundo. Ao contrário, os países mais desenvolvidos, que são também os que mais poluem, não podem fugir à percepção de que estão envenenando rapidamente o ambiente em que todos vivem, com consequências tenebrosas para a humanidade. Esta conferência de Bonn, junto com as demais previstas para este ano, é talvez uma das últimas oportunidades para a conscientização capaz de salvar o mundo de seu maior inimigo: o próprio homem.

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