Editorial - Luta de todos
O presidente norte-americano Bill Clinton lançou ontem em Atlanta uma campanha nacional considerada a mais corajosa já tentada naquele país. A meta é tentar mudar a atitude dos adolescentes e de seus pais em relação às drogas, e também livrar os Estados Unidos do vergonhoso título de campeã mundial de consumo de estupefacientes. Os EUA, com 4% da população mundial, consomem 50% da produção mundial de drogas psicotrópicas ilegais, segundo estimativas da Casa Branca. Tentando mudar essa situação, o governo investirá um bilhão de dólares em cinco anos, e uma soma igual será aportada pelo setor privado para cobrir toda a nação durante as horas de maior audiência televisiva e radiofônica, com mensagens destinadas a conscientizar os jovens e seus pais sobre os perigos do uso de alucinógenos. Os anúncios, elaborados com uma coalizão de dirigentes da indústria da publicidade e das comunicações, aparecerão também nos principais jornais e revistas e na Internet. A campanha é enfocada principalmente nos adolescentes de 11 a 13 anos, porque essa é a idade na qual se forma sua atitude para com as drogas e se começa a experimentá-las, segundo os especialistas. O diretor do departamento antidrogas da Casa Branca, general da reserva Barry McCaffrey, disse que a campanha tem sido testada desde janeiro passado em 12 cidades, com resultados animadores e se declarou convencido de que é possível mudar a atitude dos jovens para que se abstenham de usar drogas.
O Brasil, embora não ostente o nada agradável título de campeão mundial no consumo de drogas, enfrenta também este enorme e complexo problema, como de resto praticamente o mundo todo. E a luta contra o tráfico e o consumo de drogas, que tem se convertido em uma guerra dura e até agora perdida, representa talvez o maior desafio da sociedade dita organizada e civilizada. Os poderosos cartéis, movimentando quantias fabulosas de dinheiro, sem entraves de qualquer espécie, sem fronteiras e sem nenhum tipo de restrição moral, exercem atualmente um poder que, em alguns casos, é superior ao de Estados organizados.
Esta campanha que o governo norte-americano lança é justificada na medida em que se percebe que a luta contra as drogas, no mundo, passa necessariamente por estas duas vertentes: a ação policial repressiva, visando conter de todos os modos o tráfico, e o trabalho de conscientização com o objetivo de alertar as vítimas em potencial para que não se tornem viciadas. E esta é, sem dúvida, a parte mais difícil em um mundo conturbado, que mescla enormes desafios sociais com os mais complicados apelos em uma civilização que parece muito mais voltada para o consumismo. Verdadeira guerra sem quartel, a luta contra as drogas tem que ser encarada com a maior seriedade, exigindo coragem e vontade, como manifestou o presidente Bill Clinton. Ao falar em Atlanta, ele revelou, inclusive, que um seu irmão quase foi vítima fatal da cocaína. Com isto, deixou evidente aquilo que se sabe: a droga é uma ameaça que pode alcançar qualquer um, em qualquer lugar. E quando ela se apossa de um jovem, a situação se torna muito mais difícil.
Nos Estados Unidos, como no Brasil ou em toda parte, é preciso encarar com toda disposição esta questão e desenvolver esforços para enfrentar o problema. Não há como fugir a isto, nem à responsabilidade comum, como se observa na campanha norte-americana que usará dinheiro público e contribuição privada. De fato, não é só um problema do governo, nem apenas dos viciados ou de seus familiares, mas da sociedade humana como um todo. É a civilização que está envolvida na luta contra a droga.





