O preceito constitucional estabelece que ‘‘todos são iguais perante a lei’’. Na vida prática, porém, esta garantia não parece encontrar muita validade. Nas penitenciárias é raro encontrar pessoa de mais recursos, as investigações envolvendo os chamados privilegiados andam devagar e raramente acabam na prisão dos envolvidos, as ‘excelências’ brasileiras (membros dos Legislativos que, sabe-se lá por que, são assim chamados por seu pares) podem até perder o mandato, mas raramente ressarcem o erário público do que tenham desviado e dificilmente dão com os costados na cadeia. No Brasil, apesar do que está estatuído na Constituição, penitenciária só é residência de marginal pobre, o vulgarmente chamado ‘pé-de-chinelo’.
Modificar esta realidade constitui um desafio e, mais que isto, uma exigência do povo, que quer ver a democracia efetivamente implantada, o que significa igualdade de tratamento para todos. O quadro de impunidade que persiste ainda é desanimador. Todavia, alguns sinais positivos surgem em determinados momentos, fazendo renascer a esperança sobre uma real alteração nos costumes nacionais, com a punição de qualquer um que cometa um delito, seja ele um batedor de carteira agindo em um ônibus urbano ou um político graduado, denunciado por atos imorais e ilegais. A perda de mandato de alguns parlamentares, a prisão de antigos juízes (embora, até agora, o maior de todos, Nicolau dos Santos Neto, o Lalau, continue fugitivo), a pressão maior contra personalidades que se julgam acima e além da lei dão indícios de uma possível mudança neste quadro.
O anúncio feito ontem pelo Banco Central é outro fator a aumentar a esperança de ação contra a impunidade. O BC informou sobre o início de investigações sobre suspeitas de fraudes relacionadas com transferências de jogadores de futebol envolvendo os principais clubes da primeira divisão brasileira. Um balanço apresentado pelo banco indica que a instituição busca esclarecimentos dos 22 principais clubes brasileiros de futebol sobre as vendas e transferências de atletas. Os dados dessas transações declarados à Receita Federal por vários clubes não correspondem aos montantes de fato das transações efetuadas, e acredita-se que a diferença entre o os dois valores seja da ordem de US$ 44 milhões. O Banco Central vai revelar as conclusões de suas investigações na próxima segunda-feira, depois de examinar documentos apreendidos, segundo o porta-voz Fernando Celso Gomes. Ao lado disto, e na mesma área esportiva, há sérias investigações sobre alegadas ilegalidades cometidas pela empresa de propriedade do técnico da Seleção Brasileira, Wanderley Luxemburgo, na venda de veículos adquiridos em leilões. No mesmo terreno, a Receita segue investigando o jogador Ronaldinho para saber se ele tentou burlar o fisco na compra de produtos no Paraguai, durante estada da Seleção do Brasil em Foz do Iguaçu.
O esporte tem se situado, no Brasil, em um patamar diferente da política, de tal modo que certos ídolos e dirigentes parecem gozar de uma situação diferente em relação ao povo. É justa a homenagem que se presta aos grandes atletas, é natural o entusiasmo com os clubes e com as seleções, notadamente a de futebol, quatro vezes campeã do mundo. Todavia, desportistas, assim como dirigentes, não estão acima da lei ou da Constituição. Ao contrário, como alguns já perceberam, devem ser exemplo de conduta e lisura. A investigação que se faz agora, envolvendo eventuais ilícitos de clubes e abusos de alguns nomes destacados do futebol, representa uma necessidade dentro do processo que todos querem ver concluído e que deve ter como objetivo principal o fim dos privilégios de qualquer tipo entre os brasileiros.

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