Editorial - Luta contra a recessão
Assim como veio da Ásia a crise que, repentinamente, ameaçou mergulhar o mundo em uma era recessiva, surge de lá também a notícia sobre medidas efetivas e objetivas visando mudar o panorama. O primeiro-ministro japonês Ryutaro Hashimoto anunciou ontem inesperada redução de impostos de dois trilhões de ienes (US$ 15 bilhões) para o ano 1997 a fim de reativar a economia e evitar recessão mundial que tenha origem no Japão. Esta medida será apresentada em anexo ao Orçamento de 1997, que conclui em 31 de março de 1998. Temos de tomar medidas radicais diante do atual estado da economia, que é o pior entre os grandes países industrializados, justificou Hashimoto em entrevista coletiva, completando: Devemos evitar uma possível recessão mundial com ponto de partida no Japão.
As primeiras consequências do anúncio já foram sentidas e são positivas. A Bolsa de Tóquio reagiu com forte alta, enquanto o iene, em seu ponto mais baixo em cinco anos e meio nos últimos dias, se consolidava. E embora o volume dos cortes tenha sido considerado insuficiente para levantar a debilitada economia japonesa, a iniciativa foi recebida como sinal de que o governo finalmente percebeu a gravidade da situação. O dólar de Singapura subiu, o ringgit da Malásia também, o dólar de Taiwan seguiu o mesmo rumo. Até o peso filipino se recuperou. Os mercados bursáteis também tiveram um dia de recuperação, ontem. Todavia, os analistas advertem contra um excesso de otimismo sobre os efeitos a longo prazo da decisão japonesa.
A verdade, porém, é que a partir desta iniciativa do governo japonês as perspectivas se tornam diferentes. Desde que, como um castelo de cartas, as Bolsas da Ásia começaram a cair, ao tempo em que as moedas dos chamados tigres asiáticos também pareciam ser vítimas de severo ataque especulativo, o mundo tremeu. O Brasil, inclusive, foi forçado em novembro a adotar pacote dos mais duros, a fim de tentar evitar que as consequências da crise asiática derrubassem a ainda frágil estrutura econômica pós-real. Os juros subiram e um clima de temor tomou conta do mercado e do País. Gente que nunca comprou uma ação e que mal tinha ouvido falar em Coréia, Tailândia, Singapura ou outros locais, ficou inquieta e assustada com o que vinha acontecendo.
Uma ação concreta para mudar a situação, reequilibrar o mercado asiático, reduzir a instabilidade na economia mundial era mais que necessária. Esta anunciada iniciativa japonesa representa, no mínimo, um começo. Um bom começo, sem dúvida, inclusive porque parte da idéia mais simples e no entanto mais concreta quando se pretende, de fato, enfrentar situações de crise econômica. O governo do Japão, ao decidir reduzir impostos, adota a filosofia que já deu resultados em outros países e em épocas diferentes, partindo do princípio segundo o qual com redução tributária o mercado reage mais rapidamente, há mais dinheiro em circulação e a economia se realimenta. E, numa curiosa reação, o governo que reduziu os impostos acaba vendo aumentar sua receita exatamente pelo aquecimento da economia privada.
Trata-se de um caminho corajoso e o governo japonês já enfrenta a reação da oposição diante desta medida porque contraria muitos interesses, inclusive os políticos. Afinal, se a medida der certo, isto prejudicará eventuais sonhos de vitória eleitoral dos adversários. Mas o problema, naturalmente, não é este. O que se vislumbra é a ameaça verdadeira de uma debacle econômica mundial, o que seria inaceitável. Qualquer esforço que se faça para modificar esta situação, vale a pena.





