Luta contra a Hanseníase
Hoje é o Dia Mundial contra a Hanseníase. A data é marcada pela triste cifra de um caso de lepra a cada minuto, no mundo, e três milhões de pessoas afetadas por esta doença, que chega ao terceiro milênio quando os especialistas esperavam anunciar sua erradicação até o ano 2000. Uma das mais antigas doenças conhecidas na História do mundo, citada na Bíblia, tanto no Velho quanto no Novo Testamento, era de supor que o homem, com toda sua capacidade, já a houvesse conseguido erradicar. Não é o que aconteceu.
A Índia, onde foram registrados mais de 600.000 novos casos em 1998, conta com 62% dos leprosos do mundo. Mais 40.000 foram diagnosticados no Brasil e o resto, ou seja, 100.000 casos, na Indonésia, Birmânia, Nigéria, Moçambique, Guiné, Nepal, Etiópia, República Democrática do Congo, Níger, Camboja e Madagascar. Alguns focos subsistem na Europa, nas zonas mais pobres da Grécia, Turquia, Itália, Espanha, Portugal e Romênia, nos países da CEI (antigos membros da extinta União Soviética) e até no Estado norte-americano da Luisiana.
Em 1998, foram diagnosticados mais de 747.000 novos casos, entre os quais 10% em crianças, e a maioria deles em países em desenvolvimento. Apesar dos esforços das organizações não-governamentais, apenas 800.000 doentes recebem tratamento. Enfermidade que afeta os nervos periféricos, a lepra se manifesta primeiramente através da aparição de manchas claras na pele, fazendo a área perder a sensibilidade. O bacilo da lepra se estende pelas camadas protetoras dos nervos e impede que os glóbulos brancos possam atacá-lo. Depois, provoca uma inflamação dos nervos, que ficam comprimidos dentro de suas camadas protetoras e provocam a deformação dos membros. As portas de entrada e de saída do bacilo podem ser as vias respiratórias e, em menor grau, a pele. O bacilo pode viver vários dias em partículas de gotas ou no pó, por isso sua transmissão é facilitada pela falta de higiene e promiscuidade.
Nos anos 80, finalmente, uma verdadeira revolução terapêutica, o tratamento com três antibióticos combinados (triterapia) já permitiu a cura da metade dos leprosos, abrindo reais esperanças de que este mal fosse efetivamente erradicado da face da Terra. Entretanto, para ser eficaz o tratamento deve ser seguido rigidamente durante seis meses para os casos de lepra menos graves e doze meses para a variação mais contagiosa da doença (multibacilar). Tratados a tempo, os doentes podem escapar das piores sequelas da doença.
É fácil entender por que é que esta doença conhecida desde que a humanidade tomou consciência de sua força continua a ser, hoje, um flagelo: falta de vontade. Com sua inteligência e capacidade, o ser humano superou muitos outros (e tremendos obstáculos). Venceu doenças, superou desafios, atingiu o espaço, prepara-se para conquistar, no terceiro milênio, o cosmos. Se não supera um mal que inclusive já tem tratamento eficaz e conhecido, é porque falta disposição mundial no sentido de enfrentar o desafio de modo franco.
O que se tem no caso é uma evidente demonstração de que não há uma disposição concreta para resolver problemas de saúde que infelicitam principalmente os mais carentes. É quase que uma opção: deixar que os pobres sofram e morram, sem qualquer senso de humanismo. E é também um exemplo típico de como questões de saúde, principalmente as que envolvem os mais pobres, é vista neste fim de milênio. Este Dia Mundial contra a Hanseníase deveria servir para uma meditação profunda não só sobre essa doença, mas em relação ao modo como a grande maioria dos governos encara sua responsabilidade diante do sofrimento de seus povos.