Alguns meses após o lançamento do Plano Cruzado, em 1986, o Brasil caiu em cheio numa crise que afetou diretamente o abastecimento. A verdadeira camisa-de-força que era o congelamento de preços, sem o acompanhamento de um trabalho sério de conscientização e também a falta de políticas de produção compatíveis, acabou provocando o desabastecimento, o ágio e tantas outras mazelas que derrubaram um projeto que, no começo, parecia bom. As falhas surgiram na execução, sendo a principal delas, sem dúvida, justamente a idéia de que leis comuns poderiam se sobrepor às tradicionais leis de mercado, o que se revelou inadequado. A demagogia não substituiu a realidade e o plano acabou naufragando, o primeiro de uma série que tornou ainda pior a situação, com a espiral inflacionária se agravando até atingir limites inconcebíveis.
O Plano Real, estruturado de modo mais objetivo, sem apelar para congelamentos ou outros tipos de medidas de exceção, criou uma situação diferente. É certo que houve outros fatores positivos, entre os quais um trabalho de maior conscientização popular e a edição de leis efetivamente importantes, notadamente as de defesa do consumidor, que abriram caminho para uma verdadeira revolução no conceito de cidadania. Quando, depois das medidas de indexação plena, acompanhadas de outras normas que tentavam quebrar a chamada inércia inflacionária, a nova moeda surgiu, havia um clima diferente no País. O fato de não se apelar para medidas de força, permitindo-se ao mercado que funcionasse conforme suas leis, foi decisivo. A participação consciente da população, igualmente, serviu como fator relevante para o sucesso que o programa teve. Como resultado, a queda da inflação foi se processando de modo gradual, com ampla participação popular e com uma atuação concreta e racional das autoridades, que agiam conforme as situações iam surgindo. Foram criadas assim condições concretas para uma verdadeira revolução de mentalidade, sem dúvida um dos fatores mais concretos para a consolidação de todo o programa.
Neste momento em que sérias tempestades ameaçam efetivamente a nova moeda, aparentemente ressurgem alguns dos problemas vividos na época do Cruzado. Assim como há quase 13 anos, as gôndolas dos supermercados mostram espaços vazios, a relembrar o tempo do desabastecimento. Todavia, hoje há uma outra situação. Os vazios não decorrem de pressão de fornecedores tentando burlar um tabelamento forçado, mas da reação concreta de consumidores conscientes e de empresários com maior percepção. Não há falta de produtos, há a tentativa de especulação dos espertos que nunca aprendem e a reação natural de uma consciência de cidadania efetivamente atuante. Supermercadistas inteligentes não estão aceitando preços abusivos e consumidores conscientes completam um quadro que ativa os mecanismos do mercado livre, sem a necessidade de leis que pretendam subverter uma situação comum.
É inegável que diante da mudança cambial, da desvalorização da moeda, alguns produtos tendem a subir de preço. As majorações, porém, não atingem a todos. Incumbe ao consumidor perceber isto e não aceitar a especulação, o abuso, a verdadeira canalhice dos que pretendem se aproveitar de uma situação sem levar em conta qualquer outra coisa que o interesse próprio. E é precisamente isto o que se está vendo. Na falta de um produto tradicional, até mais conhecido, que subiu demais por conta da especulação, há outros, talvez com menor fama, mas que atendem às necessidades e mantêm o valor.
Quem continua com poder neste caso, sem dúvida, é o consumidor, mais especificamente o cidadão. Ele pode fazer e está fazendo a diferença. Felizmente, o próprio comércio tem percebido isto e feito sua parte, simplesmente rejeitando altas inaceitáveis. Trata-se de uma feliz e importante união que garante o sucesso nesta luta que continua e que pode ser vitoriosa, apesar da desvalorização do real. Trata-se de interpretar o vazio das gôndolas como uma reação e não como falta de produtos e de manter a atenção e a exigência em relação a preços e produtos. A especulação não prospera quando tem de enfrentar cidadãos conscientes de seus direitos e, principalmente, de seu poder no mercado e na sociedade.

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